Cultura

O giro de Renan Santos: por que a esquerda (e Anitta) passou a seguir o ex-candidato do MBL

Renan Santos, ex-candidato do MBL, em transição política rumo ao diálogo com a esquerda
Renan Santos muda tom e ganha apoio de Anitta, expondo rachas na direita brasileira.

Renan Santos, quarto colocado na disputa presidencial com 2,24% dos votos válidos, abandonou a retórica de confronto com o bolsonarismo e começou a dialogar com a esquerda — movimento que lhe rendeu, em poucos dias, o seguimento e o compartilhamento de Anitta nas redes sociais. A guinada expõe a fragilidade do espaço à direita do espectro político brasileiro e levanta uma questão: até onde vai a disposição do MBL em ceder pautas identitárias e ambientais para construir uma nova base eleitoral?

O próprio Renan resume a lógica da virada em uma frase dita em live na segunda-feira (5): “Não vai ter esse papo de que existe direita não bolsonarista”. Dois dias depois, reforçou: “Eu não sou Bolsonaro, então como eu posso ser direita?”. O discurso marca o fim de uma aposta que durou anos: a de que haveria espaço para uma direita liberal, antipetista, mas distinta do clã Bolsonaro.

O que mudou na prática desde o resultado das urnas

A mudança não é apenas retórica. Nos chats das transmissões ao vivo, aparecem mensagens como “camarada Renan” e “Lula 2026, Renan 2030”. O candidato relata ter recebido “cantadas de mulheres de esquerda e homens gays” e admite não saber se são brincadeiras, mas afirma: “trato bem quem me trata bem”. O aumento de seguidoras de esquerda já era notado na reta final da campanha, impulsionado — segundo ele — pela expectativa de vê-lo atacar Flávio Bolsonaro no debate da Globo e pela estética da campanha, que incluía críticas a Donald Trump.

O momento simbólico veio na quarta-feira (7), quando Anitta passou a segui-lo no Instagram e compartilhou um trecho em que ele critica a atuação dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. A reação de Renan foi descontraída: “Oi, Anitta! Posso falar? Tem umas músicas boas às vezes”. Ele classificou a abordagem da esquerda como “muito mais divertida” do que a do bolsonarismo na disputa pelos seus eleitores.

Os números que explicam o isolamento anterior

O resultado de 2,24% frustrou a expectativa interna. Kim Kataguiri, deputado federal e aliado, havia prometido renunciar ao mandato caso Renan superasse 3% — promessa descartada após a apuração: “Eu disse que renunciaria se ele fizesse 3%, e ele fez 2%”. O desempenho confirmou o diagnóstico de que a agressividade retórica, marca do MBL nos últimos anos, cobrou seu preço.

  • 2,24% dos votos válidos — quarto lugar na corrida presidencial
  • 3% — meta interna não atingida que custaria o mandato de Kataguiri
  • Maio/2022 — cassação de Arthur do Val (Mamãe Falei) após áudios sexistas, marco do custo político da retórica agressiva

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, “a direita liberal não existe mais no Brasil”. Segundo ele, o bolsonarismo ocupou esse espaço sem, contudo, demonstrar coerência com a defesa das liberdades individuais. “Todo movimento político precisa dialogar com o centro”, afirma Teixeira, para quem a política brasileira é incrementalista — mudanças ocorrem aos poucos — e movimentos que insistem em posições extremadas tendem ao isolamento.

As concessões que Renan admite fazer

Em conversa com a reportagem, Renan condicionou o diálogo com a esquerda a cedências mútuas: “Se muitas pessoas toparem ceder em alguns pontos exagerados, tipo discurso identitário de um lado, eu converso com todo mundo”. Ele também reconheceu ter “passado do tom” em posicionamentos anteriores por estar restrito a uma “bolha” e citou a retórica do “prendeu, matou” como algo que assustou parte do público.

Outro ponto sensível: a agenda ambiental. “Eu amo falar de meio ambiente, eu sempre evitei falar desse assunto porque eu tenho que defender o agro”, disse em live. A declaração expõe a tensão entre a base tradicional do MBL — ligada ao agronegócio — e a nova audiência conquistada nas redes, mais sensível a pautas climáticas.

Pontes diplomáticas e o segundo turno

Renan revelou ter se reunido com embaixadores de países árabes em Brasília, que teriam oferecido um jantar para discutir comentários do MBL considerados preconceituosos. O episódio sinaliza disposição para reparar pontes internacionais queimadas pela retórica anterior.

Sobre o segundo turno, a posição é de neutralidade formal: não apoiará nenhum candidato e diz que seus eleitores estão livres para escolher. Mas impõe uma condição a quem quiser disputar seus votos: “Bolsonarista, esquerdista, conversa, só sejam educados”. A crítica direta a Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) por terem, segundo ele, xingado seus apoiadores mostra que o rompimento com a ala mais radical do bolsonarismo é real.

O que observar daqui para frente

A sustentabilidade desse reposicionamento depende de três variáveis. Primeira: se a esquerda manterá o interesse além do momento de curiosidade — ou se o “efeito Anitta” se dissipa quando a campanha acabar. Segunda: se a base histórica do MBL aceitará as concessões em pautas identitárias e ambientais sem debandar. Terceira: se Renan conseguirá transformar engajamento nas redes em estrutura partidária e capilaridade territorial para 2026. O cientista político ouvido pela reportagem resume o dilema: no Brasil, quem não dialoga com o centro acaba isolado. O teste, agora, é saber se o MBL tem fôlego — e unidade — para fazer esse travessia.