Economia

UE desenha imposto “camuflado” para atingir big techs dos EUA sem retaliação

Ilustração da UE criando imposto camuflado para taxar big techs dos EUA sem retaliação de Trump
Estratégia tributária europeia mira gigantes tecnológicos americanos evitando conflito comercial direto

A União Europeia está redesenhando uma tributação ampla sobre grandes corporações para atingir as big techs americanas sem citá-las nominalmente, driblando a ameaça de retaliação comercial de Donald Trump. A manobra altera a proposta conhecida como “Recurso Corporativo para a Europa” (Core) para focar apenas em gigantes globais. Mas a aprovação exige unanimidade entre 27 países — e o relógio corre contra o orçamento de 2028.

O xadrez tributário por trás da manobra

A Comissão Europeia trabalha em ajustes no Core, mecanismo que previa uma contribuição anual fixa para empresas com receita acima de 100 milhões de euros (cerca de R$ 560 milhões) e operações no bloco. No formato original, a regra alcançava uma fatia pequena dos lucros das multinacionais e pegava em cheio médias empresas europeias.

A nova engenharia eleva os limites para excluir o médio porte nacional e concentrar a cobrança nas corporações de escala global — leia-se: Apple, Meta, Google e afins. A estratégia resolve dois problemas de uma vez: engorda a arrecadação do bloco e reduz a resistência interna de capitais que temiam prejudicar seus próprios campeões regionais.

Por que o acordo global travou e o plano B ganhou urgência

O pano de fundo é o colapso da negociação mediada pela OCDE para taxar multinacionais onde elas geram valor. Com a reeleição de Trump, o pacto de 2021 foi dado como “morto” por autoridades do bloco. Bruxelas havia suspendido seu imposto digital próprio para dar chance ao acordo global; agora, retoma a ofensiva — mas com luvas de pelica.

Impostos diretos sobre serviços digitais (DSTs) já existem na França, Itália, Espanha e Áustria. Todos viraram alvo de investigações dos EUA baseadas na Seção 301, porta de entrada para tarifas retaliatórias. O Core reformulado nasce justamente para não ser classificado como DST e, assim, escapar do radar da Casa Branca.

Os números e os obstáculos internos

O pacote de “recursos próprios” — onde o Core se encaixa — mira arrecadar 60 bilhões de euros por ano a partir de 2028 (aproximadamente R$ 336 bilhões). Para valer, no entanto, precisa do “sim” de todos os 27 Estados-membros.

  • Limiar atual: 100 milhões de euros de faturamento (atinge muitas médias empresas).
  • Meta proposta: Elevar o teto para capturar apenas grandes conglomerados globais.
  • Prazo político: Fechar o pacote ainda este ano, segundo a Comissão.

Mesmo com o desenho mais cirúrgico, há capitais relutantes em qualquer medida que cheire a confronto com Washington. Outras pressionam por receitas rápidas para fechar as contas do orçamento plurianual. O equilíbrio é frágil.

O que observar daqui para frente

A Comissão promete apoio total ao Conselho e ao Parlamento para fechar o acordo em 2024. O sinal verde depende de duas variáveis: a disposição de países como Irlanda e Hungria — sedes de muitas big techs — em abrir mão de vantagens fiscais, e a capacidade de Bruxelas provar que o tributo é tecnicamente neutro, e não uma “taxa anti-EUA” disfarçada.

Se o Core passar, será o maior ensaio real de soberania fiscal europeia na era digital. Se travar, o bloco volta à estaca zero: orçamento apertado, DSTs nacionais expostas a tarifas e zero coordenação global. O desfecho dita as regras do jogo para qualquer empresa que fatura alto no mercado único.