Economia

O dilema do leite: Flávio Bolsonaro promete barrar Argentina e Uruguai, mas flerta com Milei

O senador Flávio Bolsonaro (PL) colocou o setor leiteiro no centro de sua plataforma presidencial ao prometer combate rigoroso ao dumping de leite em pó da Argentina e do Uruguai. A declaração, feita nesta terça-feira (6) após encontro com a bancada ruralista, expõe uma contradição direta: o candidato busca alinhamento ideológico com Javier Milei, mas propõe barreiras comerciais que atingem em cheio o país vizinho.

O que está em jogo para o produtor brasileiro

Em junho, o Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior) confirmou a existência de prática de dumping nas importações de leite em pó argentino e uruguaio. A investigação, solicitada pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária), apontava prejuízo à indústria nacional.

A conclusão técnica permitiria a aplicação de taxas antidumping por cinco anos, encarecendo o produto importado e estimulando a compra interna. No entanto, o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) decidiu adiar a medida para avaliar impactos no abastecimento, na inflação de alimentos e nos custos industriais.

Os números por trás da disputa

  • Período de vigência das taxas: até 5 anos, se aplicadas
  • Países investigados: Argentina e Uruguai
  • Órgão que concluiu pelo dumping: Gecex (junho/2024)
  • Pasta responsável pela avaliação de impacto: Mdic

O adiamento gerou reações opostas. Representantes argentinos e uruguaios manifestaram preocupação com o prazo da avaliação brasileira e alertaram que eventuais medidas poderiam ter “caráter proibitivo”, criando incerteza para operadores do Mercosul. Já a bancada ruralista vê na demora um risco à competitividade do produtor nacional.

O xadrez diplomático com Milei

A promessa de Flávio cria um cenário delicado. No domingo (4), Javier Milei usou suas redes sociais para declarar apoio ao candidato do PL, chegando a publicar foto de Jair Bolsonaro com a frase “Hoje é por ele”. Em julho, o presidente argentino participou do lançamento da campanha no Brasil e chamou Lula de “lixo socialista”, episódio que provocou rebaixamento inédito nas relações bilaterais.

Flávio afirma que, se eleito, fará “tesouraço” inspirado na política econômica de Milei. Mas, no caso do leite, seus interesses eleitorais no agronegócio brasileiro colidem frontalmente com a abertura comercial defendida pelo libertário argentino.

Promessas à bancada ruralista

Além do compromisso antidumping, o candidato atendeu a todos os pleitos da frente parlamentar do agro. O mais simbólico: a bancada poderá indicar o ministro da Agricultura em eventual governo seu. O gesto consolida o apoio ruralista na disputa contra o presidente Lula (PT) no segundo turno de 2026.

O que observar nos próximos meses

A definição do Mdic sobre a aplicação das taxas antidumping será o primeiro teste prático. Se o ministério mantiver a suspensão, o tema deve permanecer como bandeira de campanha. Se aplicar as medidas, a reação argentina e uruguaia — e a posição de Milei — ditarão o rumo das relações comerciais no cone sul. Para o empresário do setor, a sinalização é clara: a política comercial do leite será decidida no campo político, não apenas no técnico.