No oeste de Santa Catarina, uma granja abate até 16 mil codornas por dia e embarca metade da produção para o exterior a R$ 50 o quilo. O que explica esse movimento silencioso que coloca a carne de codorna no radar de investidores do agronegócio?
A resposta passa por biossegurança extrema, genética europeia e um mercado externo que paga pelo animal menor — enquanto o Brasil prefere a ave mais graúda.
Da salada ao prato principal: a virada de chave no consumo
O ovo de codorna já é item fixo em conservas e saladas. A carne, porém, ainda vive nas sombras do frango e do peru. Em Coronel Freitas, a lógica se inverteu: os ovos não vão para a mesa, viram pintainhos de corte.
Em Arvoredo, a 30 quilômetros dali, a cozinheira Marta Bianchin transforma a ave em atração turística. Sua codorna recheada no fogão a lenha leva carne bovina, queijo, milho, azeitona e farinha de rosca. Duas horas e meia de cozimento lento. O segredo? O caldo que a ave solta, apurado com alho-poró, cebolinha, salsa, cebola e muito alho, volta para a panela no final.
Biossegurança de nível hospitalar
Antes de qualquer ave nascer, a granja impõe regras que lembram UTI. Funcionários e visitantes tomam banho e trocam de roupa. Veículos passam por desinfecção. O matrizeiro — setor de reprodução — mantém 40 aves por gaiola: 31 fêmeas e 9 machos.
A coleta acontece quatro vezes ao dia. Em um único barracão, saem 3.500 ovos diários. O ambiente fica entre 20°C e 25°C, com 16 a 18 horas de luz artificial. Resultado: 90% de ovos viáveis.
- Temperatura inicial: 35°C no primeiro dia de vida
- Temperatura final: 22°C na fase de engorda
- Luz: 24 horas acesa na reta final para estimular consumo
- Ração: quatro fases, proteína caindo e carboidrato subindo
Dois mercados, dois pesos, uma mesma granja
No abate, o critério é só o peso. A granja comercializa três categorias: 100g, 150g e 200g. As duas primeiras voam para Japão e Emirados Árabes. A de 200g abastece Sul, Nordeste e Distrito Federal. Metade da produção sai do país; a outra metade roda o Brasil.
O preço médio de R$ 50/kg se mantém igual nos dois canais. A diferença está no volume: o mercado externo quer ave inteira, pequena, para preparos individuais. O brasileiro busca rendimento de carne.
O que observar daqui pra frente
A cadeia ainda é nicho, mas os sinais de profissionalização são claros: genética definida, nutrição cirúrgica, biossegurança rígida e logística de exportação funcionando. Se a demanda externa crescer — e o consumo interno descobrir a versatilidade da carne —, a tendência é de expansão de granjas dedicadas exclusivamente ao corte. Quem monitora o setor de proteínas alternativas deve ficar atento ao próximo censo avícola e às habilitações de novos frigoríficos para o mercado japonês.
