Economia

Superávit de 2026 encolhe US$ 5,6 bi: o que o petróleo esconde nos números do MDIC

Gráfico mostra queda no superávit comercial brasileiro 2026 devido ao preço do petróleo Brent
Projeção do superávit comercial de 2026 cai para US$ 84,4 bi com petróleo Brent a US$ 100

O governo cortou a projeção do superávit comercial de 2026 para US$ 84,4 bilhões — uma redução de US$ 5,6 bilhões em relação à estimativa de julho. A razão central tem nome e cotação: petróleo Brent a US$ 100, bem longe dos US$ 138 vistos em abril.

Mesmo com o corte, o número ainda representa alta de 24% sobre o saldo de 2025. Mas a composição desse resultado guarda detalhes que importam para quem decide alocação de capital.

O que mudou nas contas do Ministério

A revisão do MDIC mexe nas duas pontas da balança. As exportações projetadas caíram de US$ 394,4 bi para US$ 382,5 bi. As importações, de US$ 304,4 bi para US$ 298,1 bi. O superávit, diferença entre as duas, encolheu proporcionalmente mais do lado das vendas externas.

  • Exportações 2026 (proj.): US$ 382,5 bilhões (-US$ 11,9 bi vs. projeção anterior)
  • Importações 2026 (proj.): US$ 298,1 bilhões (-US$ 6,3 bi vs. projeção anterior)
  • Superávit 2026 (proj.): US$ 84,4 bilhões (-US$ 5,6 bi vs. projeção anterior)

Na prática, o choque de preço do petróleo reduz a receita de exportação de óleo bruto, mas também alivia a conta de importação de derivados. O efeito líquido, porém, é negativo para o saldo.

Segundo maior da história — se confirmado

Caso a projeção se realize, 2026 ficará atrás apenas de 2023 (US$ 98,9 bi) na série histórica. O ano de 2025 fechou em US$ 68,1 bilhões. Para chegar aos US$ 84,4 bi, o Brasil precisa acumular cerca de US$ 22 bilhões de superávit no último trimestre — valor quase idêntico ao registrado no mesmo período de 2025 (US$ 21,8 bi).

Herlon Brandão, diretor de Estatísticas do MDIC, classifica a estimativa como “cenário bastante consolidado” a três meses do fechamento.

Setembro dá o tom: volume e preço

O nono mês do ano trouxe superávit de US$ 7,74 bilhões — 146% acima de setembro de 2025. Foi o melhor resultado mensal desde junho.

As exportações somaram US$ 34,42 bi (+12,9% ano a ano). As importações recuaram 2,4%, para US$ 26,68 bi. A média diária de embarques cresceu 18,3%, ajustada pelo dia útil a menos.

O petróleo bruto respondeu por US$ 6,49 bilhões das vendas externas do mês, salto de 77,3%. Preços médios das exportações subiram 9,9%; volumes, 2,3%.

O que observar daqui para frente

A trajetória do Brent nos próximos 90 dias dita o risco de nova revisão. Cada US$ 10 de variação no barril move a projeção de superávit em alguns bilhões de dólares, dado o peso duplo do insumo na pauta brasileira.

Além do petróleo, a demanda por minério de ferro e soja — ainda sem revisão expressiva — e o ritmo de importação de bens de capital e intermediários (sensíveis à taxa de câmbio e à atividade doméstica) completam a equação.

Para o investidor, o sinal claro: o superávit recorde de 2023 não se repete, mas o patamar estrutural permanece elevado. A volatilidade cambial de curto prazo continuará atrelada às commodities, não ao saldo comercial em si.