A Liqi lançou o Tomé, um agente de inteligência artificial gratuito que varre a burocracia do mercado de capitais brasileiro e responde perguntas complexas em minutos — trabalho que levaria dias para uma equipe de analistas. A ferramenta já processou mais de 25 mil consultas de profissionais de 150 empresas desde julho. Mas o verdadeiro impacto está no que acontece quando a máquina começa a cruzar dados que humanos não conseguem acompanhar.
O fim da leitura manual de PDFs infinitos
Analisar um grande Fundo de Investimento Imobiliário (FII) de papel exige checar centenas de CRIs: securitizadoras, devedores, assembleias, atrasos, fatos relevantes. No início de outubro, o Tomé fez essa varredura completa em menos de cinco minutos. Ele não apenas respondeu ao questionário padrão, mas listou as cinco operações com mais novidades recentes — assembleias, vendas de lastro, reestruturações — citando o número exato do documento de origem.
A lógica do sistema é simples e radical: ele só afirma o que leu. “O Tomé mostra o que foi declarado, o que mudou depois e o que não fecha — e entrega a fonte de cada número. Quem tira conclusão é o leitor”, explica Daniel Coquieri, CEO da Liqi. Ele não dá nota, não recomenda. Ele lê.
Uma base de dados impossível de construir à mão
Por trás da interface de chat há uma infraestrutura de dados massiva, construída a partir da leitura direta de documentos originais — não de planilhas de terceiros. Os números impressionam:
- 9 milhões de páginas lidas e indexadas (2 milhões analisadas página a página por IA);
- 370 milhões de registros estruturados sobre 60 mil fundos, emissões e companhias;
- 6,4 mil FIDCs com informes mensais desde 2013;
- 1,4 milhão de arquivos da CVM, B3 e portais de securitizadoras;
- 88 mil decisões de assembleias e 31 mil pareceres de auditoria catalogados;
- 867 mil eventos de precificação no balcão da B3 cruzados com os dados declarados.
A base mapeia 118 mil vínculos entre fundos e 4,5 mil prestadores de serviço (administradores, gestores, custodientes, auditores). Tudo é atualizado diariamente.
O gatilho regulatório que tornou a ferramenta indispensável
Em 24 de setembro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) proibiu FIDCs de investir em créditos de ações judiciais sem decisão definitiva a partir de 13 de outubro. A partir de janeiro, esses ativos precisam de precificação verificável, reavaliação a cada fato processual e divulgação mensal, processo a processo.
No dia seguinte à regra, o Tomé varreu as carteiras declaradas à CVM e encontrou mais de 400 fundos com R$ 60 bilhões em créditos de origem judicial. Metade ligada a ações em andamento (atingidas pela regra), metade a precatórios (geralmente já decididos). Para gestores e administradores, o desafio agora é entender, fundo a fundo, o que a carteira carrega, o que o regulamento permite e o que o auditor já questionou. É exatamente essa esteira de conformidade que o agente automatiza.
Da gratuidade ao modelo B2B: a infraestrutura por trás do chat
O Tomé segue gratuito para o público, com limite diário de perguntas. Mas a tecnologia que o sustenta gerou uma oferta corporativa em três frentes, vendida para bancos, gestoras e prestadores de serviço:
- API de séries históricas: inadimplência, subordinação, prazos, preços, covenants, eventos societários — plugados direto nos sistemas do cliente;
- Leitura sob demanda: a mesma engine que transforma uma escritura de centenas de páginas em tabela estruturada em minutos, aplicada a documentos privados do cliente em ambiente segregado;
- Módulos de inteligência: monitor de lastro, radar de sinais, “raio-X” de obrigações e enquadramento regulatório.
O próximo passo, segundo Coquieri, são agentes que vigiam eventos futuros — pagamentos, assembleias, entrega de informes — e disparam alertas quando algo não fecha. A própria Liqi já roda 17 agentes internos, da securitização à área financeira.
O que observar daqui para frente
A CVM anunciou que usará IA para supervisionar o mercado 24 horas por dia a partir de 2026. Na prática, quem reporta dados será lido por máquinas — e quem opera precisará de máquinas para acompanhar o volume. A tese da Liqi, iniciada em 2021 com ativos tokenizados (R$ 4,6 bi estruturados), seguiu para a moeda programável (BRLD) e agora aterrissa na camada de dados. “Primeiro vieram os ativos. Depois, a moeda. Agora, os dados”, resume o CEO. Para o mercado, a mensagem é clara: a vantagem competitiva migrou de ter acesso à informação para conseguir processá-la antes do regulador e da concorrência.
