Renato Gomes assume a presidência da ABBC nesta terça-feira (6) com a missão de liderar a entidade que reúne bancos médios e regionais. O anúncio veio do conselho de administração da associação e sinaliza continuidade nas agendas técnicas, mas o pano de fundo carrega tensões recentes que ainda ecoam no setor.
Gomes chega credenciado por três anos à frente da diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central. Foi dele a área que recomendou o veto à compra do Banco Master pelo BRB — decisão que detonou uma campanha coordenada nas redes sociais, batizada de “Projeto DV”, com contrato de confidencialidade de R$ 800 mil e investigação em curso na Polícia Federal.
Por que a escolha pesa mais do que parece
A ABBC não é apenas mais uma entidade de classe. Ela representa instituições que, somadas, respondem por fatia relevante do crédito a pessoas físicas e pequenas empresas — justamente o segmento onde a competição com os grandes bancos se decide no detalhe regulatório.
O presidente anterior, Leandro Vilain, migrou para a Febraban. A troca de cadeiras entre as duas principais associações bancárias do país não é coincidência: desenha um alinhamento de discurso entre quem negocia com o regulador (Febraban) e quem precisa de regras proporcionais para sobreviver (ABBC).
O perfil técnico que o momento exige
- PhD em Economia pela Northwestern University (EUA)
- Passagens por Toulouse School of Economics, CNRS (França) e CEPR (Londres)
- Experiência no Google Research, em Nova York, focada em regulação de meios de pagamento
- Membro do comitê executivo do CGAP (Banco Mundial) e do Conselho Superior de Economia da Fiesp
A formação acadêmica de Gomes concentra-se em economia industrial, concorrência e infraestrutura de pagamentos. Não é currículo de gabinete — é de quem entende como regras de mercado moldam incentivos reais.
O vácuo deixado no Banco Central
A cadeira de diretor de Organização e Resolução segue vaga. Gilneu Vivan, diretor de Regulação, responde interinamente. A demora na nomeação de um titular efetivo pode travar agendas sensíveis: novo marco de resolução bancária, regras de open finance e a própria discussão sobre proporcionalidade regulatória para bancos menores.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O que os bancos médios ganham — e o que ainda precisam provar
Com Gomes na ABBC, a expectativa é de uma atuação mais baseada em evidências e menos reativa. A entidade deve pressionar por:
- Regras de capital proporcionais ao risco e ao porte
- Redução de assimetrias no open finance
- Segurança jurídica para modelos de negócio baseados em parcerias (banking as a service, correspondaentes)
O desafio é transformar capital técnico em influência política. A Febraban tem capilaridade e orçamento muito superiores. A ABBC precisará escolher batalhas — e vencê-las com dados.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se a gestão Gomes entrega o prometido: a velocidade com que a ABBC apresenta propostas concretas sobre proporcionalidade regulatória; a capacidade de articular com o BC sem parecer “braço do regulador”; e a resposta ao inquérito da PF sobre o “Projeto DV” — se houver desdobramentos, a credibilidade da entidade estará na linha de frente. Para quem opera no crédito a PMEs ou acompanha a concorrência bancária, a posse de hoje não é só troca de cadeira. É o começo de um teste de fogo.
