Três setores industriais tentaram, sem sucesso, sentar à mesa com Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno. O recado foi claro: a agenda estava fechada para o tema China. O silêncio, mais do que a fala, acendeu o alerta em quem movimenta bilhões no comércio bilateral.
O que o silêncio esconde sobre a maior parceria comercial do Brasil
Representantes do agronegócio, da siderurgia e de tecnologia procuraram a campanha mais de uma vez. Foram encaminhados a assessores. Nenhuma reunião direta com o candidato aconteceu. A leitura nos bastidores é unânime: evitar o assunto agora evita compromissos depois.
Um auxiliar próximo resumiu a estratégia em quatro palavras: “não é a hora”. A frase, dita em off, ecoa como aviso. O maior parceiro comercial do Brasil — destino de 30% das exportações nacionais em 2023 — não merece, aparentemente, uma conversa franca antes das urnas.
O discurso público versus a prática de campanha
Em palanques e entrevistas, Flávio repete o mantra da “relação pragmática”. Diz que o Brasil não precisa escolher entre Pequim e Washington. Na prática, porém, a campanha sinaliza alinhamento automático com a Casa Branca — qualquer que seja o ocupante.
Em maio, o candidato foi recebido no Salão Oval por Donald Trump. No encontro, pediu a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Prometeu ainda aderir ao “Escudo das Américas”, iniciativa de segurança hemisférica capitaneada pelo republicano.
O tabuleiro geopolítico e o risco para exportadores
Uma vitória de Flávio desenharia um cenário claro: o Brasil como trincheira americana na América do Sul. O contraponto direto à influência chinesa. Para quem vende soja, minério de ferro ou celulose a Pequim, a equação assusta.
- China: 30% das exportações brasileiras (US$ 104 bi em 2023)
- EUA: 11% das exportações (US$ 38 bi no mesmo período)
- Superávit com a China: US$ 51 bilhões no ano passado
Romper ou tensionar esse fluxo não é apenas retórica. É receita, emprego, balança comercial. Setores que dependem de previsibilidade — como o agronegócio, que coloca 70% da soja no mercado chinês — veem a indefinição como ameaça concreta.
Por que a recusa em conversar agora importa para depois
Campanhas costumam ouvir quem financia a economia. Fechar a porta para demandas legítimas de setores exportadores sugere que a decisão já está tomada — e que o custo político de explicá-la supera o benefício do diálogo.
O pragmatismo proclamado nos discursos exige, no mínimo, escuta. A ausência dela fala mais alto.
O que observar nas próximas semanas
Fique atento a três sinais: se a campanha abrir agenda para entidades de classe após o primeiro turno; se houver menção a acordos bilaterais específicos com Pequim nos planos de governo; e qual será a primeira visita internacional prometida. A resposta dirá se o “pragmatismo” sobrevive à eleição — ou se era apenas slogan de palanque.
