A NASA quer um reator funcionando na Lua até dezembro de 2030; Rússia e China miram 2036. A pressa não é apenas científica: quem chegar primeiro dita as regras da futura economia lunar. Mas especialistas alertam que a competição está criando riscos que ninguém sabe gerenciar.
Por que a Lua precisa de energia nuclear?
Painéis solares falham durante a noite lunar, que dura 14 dias terrestres. No polo sul, alvo das bases, as temperaturas oscilam entre 54 °C e -201 °C. Sistemas de radioisótopos (RTGs) aquecem equipamentos hoje, mas não sustentam uma colônia.
Reatores de fissão resolvem o problema: são compactos, independentes do Sol e escaláveis. O modelo da NASA, Lunar Reactor 1, deve gerar 20 kW — energia para 16 casas nos EUA — por cinco anos sem intervenção humana. O russo-chinês Selena promete 10 kW por uma década.
O fator Rússia: experiência e monopólio de combustível
Moscou lançou mais de 30 reatores espaciais na Guerra Fria. Hoje, controla a principal fonte de HALEU (urânio de baixo enriquecimento), combustível considerado mais seguro e que a NASA planeja usar. Os EUA baniram importações russas em 2024 por causa da guerra na Ucrânia, criando um gargalo estratégico.
- Meta EUA: 20 kW até 2030 (NASA + Pentágono).
- Meta Rússia/China: 10 kW até 2036 (Projeto Selena).
- Gargalo: Falta de HALEU ocidental e módulo de pouso para carga pesada/radioativa.
O perigo começa na plataforma de lançamento
Ambos os lados garantem que os reatores voam “frios”, sem reação iniciada. Ainda assim, a história assusta. Em 1978, o satélite soviético Kosmos 954 espalhou material radioativo por 124 mil km² no Canadá; só 0,1% foi recuperado. Em 2019, uma explosão no Mar Branco matou cinco pessoas durante recuperação de um míssil nuclear — a Rússia nega que era um reator.
“Tivemos muitas falhas de lançamento. Temos dados do que dá errado”, resume Leopold Summerer, da ONU. A água do oceano, em caso de queda, pode moderar nêutrons e iniciar uma reação em cadeia não planejada.
E se der problema na superfície?
Na Terra, descomissionar um reator leva anos. Na Lua, a ideia é abandonar o lixo radioativo no local. Sem atmosfera, uma explosão lança detritos a distâncias enormes pela baixa gravidade. Não há contenção de concreto viável economicamente.
R. Scott Kemp, do MIT, é direto: “Acidente é quando as coisas não saem como o planejado”. A NASA diz que haverá proteção e zonas de exclusão, mas detalhes técnicos seguem em aberto.
Microreatores e o atalho militar
O Pentágono já contratou a Antares para desenvolver microreatores (até 10 MW) para órbita e Lua. A vantagem: são pequenos demais para data centers, mas ideais para bases avançadas e propulsão nuclear — a NASA quer testar um foguete nuclear rumo a Marte já em 2028.
Porém, nenhum microreator está certificado para voo. Questões de remoção de calor, blindagem contra radiação cósmica e integridade estrutural em baixa gravidade seguem sem resposta definitiva.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem quem vence — e se o jogo vale a vela: a capacidade dos EUA de produzir HALEU em escala doméstica; o sucesso dos módulos de pouso pesados (ainda inexistentes); e a disposição diplomática para criar regras de responsabilidade por acidentes nucleares fora da Terra. Katy Huff, da Universidade de Wisconsin, resume o dilema: “É viável, mas a competição pode não ser o melhor caminho. A ciência colaborativa já superou a política antes”. Quem investe no setor deve monitorar os contratos do Departamento de Energia dos EUA e os testes de voo do Starship, único foguete com capacidade teórica para levar esses reatores ao destino.
