Economia

O segredo que o agro esconde: 5 gargalos que o próximo presidente não resolve sozinho

Plantação de soja no Brasil com caminhões e silos ao fundo, representando desafios logísticos do agronegócio
O agronebócio brasileiro carrega o PIB, mas enfrenta gargalos estruturais que vão além de um mandato presidencial

O agronegócio carregou o PIB do primeiro trimestre nas costas, mas carrega também uma conta que não fecha em quatro anos de mandato. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) entregou ao futuro governo uma agenda com cinco frentes urgentes: financiamento climático, independência de insumos, infraestrutura logística, imagem internacional e abertura de mercados. Especialistas ouvidos pelo g1 concordam: os problemas são reais, mas a solução exige horizonte de décadas e dinheiro privado.

O primeiro nó é o crédito. Juros altos e safras frustradas pelo clima criaram um ciclo vicioso: produtor inadimplente, banco seletivo e investimento travado antes do plantio. Hoje, apenas 3% da produção tem seguro rural. A nova lei 15.526/2026, publicada em 30 de abril, torna obrigatória a subvenção ao prêmio e regulamenta o Fundo de Catástrofe — atendendo pleitos antigos da Abag. Ainda falta, porém, organizar a contabilidade das fazendas para que o risco caia e o crédito volte a fluir.

Dependência de 80% em fertilizantes expõe o Brasil a guerras

O segundo gargalo é químico. O país importa cerca de 80% dos adubos que consome, com fornecedores concentrados em rotas de conflito como o Estreito de Ormuz. O Plano Nacional de Fertilizantes existe, mas seus frutos são de longo prazo e a geologia brasileira não tem todo o potássio e fósforo necessários. Enquanto a produção interna não escala, a saída imediata é diversificar fornecedores — o que o governo atual ainda faz de forma tímida.

Há também o “passivo regulatório” na aprovação de defensivos e biotecnologia. Agilizar demais pode pular testes de segurança; manter a lentidão trava a inovação. Não há atalho técnico para esse dilema.

Infraestrutura: o apagão logístico que come a margem do produtor

Em quatro anos, a safra deve crescer quase 100 milhões de toneladas — o equivalente a toda a produção argentina. Armazéns faltam, estradas precárias encarecem o frete e licenças ambientais travam obras já financiadas e estudadas. A conectividade rural completa o quadro: 1,3 milhão de domicílios rurais (15%) não tinham internet em 2024, segundo o IBGE. Máquinas conectadas sem dados para transmitir viram peso morto.

  • Falta de armazenamento gera perdas físicas de grãos.
  • Licenciamento lento paralisa projetos urgentes.
  • Dependência excessiva do modal rodoviário.
  • Conectividade rural ainda é luxo para muitos.

O setor público não tem caixa para resolver sozinho. Concessões, PPPs e privatizações terão de entrar na equação, mas exigem segurança jurídica que ainda oscila.

Imagem arranhada e mercados concentrados: o risco geopolítico

Por fim, dois lados da mesma moeda. O agro brasileiro sofre com reputação ruim dentro e fora do país — ao contrário do café colombiano, que transformou origem em desejo. Uma política nacional de comunicação articulada com o setor privado pode virar o jogo, mas demanda consistência de anos, não de gestão.

Na prática comercial, o Brasil tem poucos acordos de longo prazo. O maior cliente, a China, não tem tratado bilateral. A União Europeia proibiu antimicrobianos na produção animal e o Brasil reagiu tarde, embora a medida fosse esperada. Concentrar exportações em poucos parceiros é aposta arriscada em mundo de barreiras sanitárias e tarifárias crescentes. A defesa da competitividade passa por antecipar regras alheias e negociar produto a produto, não só em blocos amplos.

O que observar daqui para a frente

O próximo presidente herdará a caneta, mas não a varinha mágica. Acompanhe três sinais concretos nos primeiros 180 dias: (1) se o Fundo de Catástrofe sai do papel com capitalização real; (2) se o governo acelera licenciamentos prioritários sem afrouxar critérios ambientais; (3) se a diplomacia comercial entrega ao menos um acordo bilateral estratégico. Sem execução nessas frentes, a conta do agro segue aberta — e o juro quem paga é a sociedade inteira.