Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelam que o ex-dono do Banco Master classificava Fernando Haddad como um de seus “maiores opositores” — apesar de admitir que nem o conhecia pessoalmente. A declaração, feita em outubro de 2024, expõe a tensão nos bastidores da tentativa frustrada de venda da instituição ao BRB.
O diálogo ocorreu semanas antes da prisão do banqueiro e da liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central. Mas o que motivava tamanha hostilidade unilateral?
A conversa que expõe o jogo de poder
Em 17 de outubro do ano passado, a advogada Vanessa Souza questionou Vorcaro sobre o andamento da negociação com o Banco Central. A resposta veio direta: “Tema é bem mais profundo, hoje a noite te conto. E Haddad um dos meus maiores opositores. Infelizmente, pq nem conhecer o conheço.”
O trecho, publicado inicialmente por O Globo e confirmado pela Folha, integra o material apreendido na operação que levou o empresário à cadeia em 17 de novembro. Hoje, ele está detido no 19º Batalhão da Polícia Militar do DF, conhecido como “Papudinha”.
O que estava em jogo na negociação com o BRB
À época da troca de mensagens, o Banco Central analisava a venda do Master para o Banco de Brasília. A operação era vista como última alternativa para evitar a liquidação da instituição, que já enfrentava grave crise de liquidez e confiança.
Principais marcos do processo:
- Agosto 2024: Consultor Júlio Cezar articula jantar com o ministro Alexandre Padilha
- Outubro 2024: Diálogo com advogada revela hostilidade a Haddad
- 17 nov 2024: Primeira prisão de Vorcaro
- Pós-prisão: BC decreta liquidação extrajudicial do Master
Tentativas frustradas de acesso ao Ministério da Fazenda
As mensagens mostram que Vorcaro buscava uma audiência com Haddad desde 2023. Em agosto de 2024, o consultor Júlio Cezar — que já havia viabilizado o encontro com Padilha, então na Secretaria de Relações Institucionais — tentou agendar reunião com o titular da Fazenda. Não houve sucesso.
O material completo foi encaminhado a gabinetes de ministros do Supremo Tribunal Federal. A proximidade das mensagens com a decisão do BC de liquidar o banco, em vez de aprovar a venda, levanta questionamentos sobre o peso do relato político na análise técnica do regulador.
O que observar daqui para frente
O caso expõe como relações pessoais e percepções políticas podem influenciar — ou serem usadas para justificar — desfechos corporativos bilionários. Para investidores e gestores, o episódio reforça a necessidade de monitorar riscos regulatórios que vão além de balanços e indicadores financeiros.
A liquidação do Master ainda rende desdobramentos judiciais. O próximo capítulo deve envolver a destinação dos ativos remanescentes e eventuais responsabilizações de administradores e conselheiros. Acompanhar os editais do liquidante e as decisões do STF sobre o material apreendido será essencial para entender o destino final dos credores.
