O governo estuda limitar a emissão de cartões de crédito, e os primeiros números mostram que a medida deve atingir em cheio o público de alta renda. Dados preliminares do setor financeiro indicam que a concentração de múltiplos plásticos por CPF explode entre quem ganha acima de 10 salários mínimos. Entenda o que está por trás da ofensiva contra o endividamento caro.
O retrato da concentração: quem realmente tem vários cartões
Análises iniciais revelam um padrão claro: a posse de diversos cartões simultâneos é fenômeno predominantemente rico. No estrato de renda mais baixa, de até um salário mínimo, a média de plásticos por pessoa mal se moveu nos últimos anos.
Já entre os mais abastados, a quantidade média quase triplicou entre 2018 e 2024. Esse crescimento acelerado transformou o público de alta renda no principal alvo de qualquer regra que limite a quantidade de instrumentos de crédito por cidadão.
Juros de 400% e a armadilha do rotativo
O motor da preocupação oficial é o custo do dinheiro. Em muitos contratos, o rotativo supera 400% ao ano, alimentando um ciclo de dívida que preocupa tanto o Palácio do Planalto quanto os próprios bancos, que veem a inadimplência subir.
Nos bastidores, há consenso de que parte do problema passou pela explosão das apostas online. As “bets” teriam drenado renda que serviria para quitar débitos e, ao mesmo tempo, estimulado a contratação de novos empréstimos para cobrir perdas.
Desenrola novo e o que falta resolver
Como resposta estrutural, o governo lança em novembro o novo leilão do Desenrola. Desta vez, a União comprará blocos de dívidas com desconto, alcançando não só pendências bancárias, mas também de varejo e utilities.
A iniciativa é bem-vista pelo mercado, mas considerada insuficiente sozinha. Medidas anteriores, como o teto para o rotativo (que impede que a dívida dobre), não resolveram o custo das operações de curto prazo, mantendo o endividamento efetivamente alto.
O que está na mesa: ofertas predatórias e capital dos bancos
Após repercussão negativa, o presidente Lula recuou da ideia de fixar um teto numérico de cartões por pessoa. O foco migrou para três frentes concretas:
- Fim do envio não solicitado: proibição de remetir plásticos ou limites pré-aprovados sem pedido do cliente;
- Combate à oferta predatória: o Banco Central mira a prática de empurrar crédito fácil via correspondentes e canais digitais;
- Exigência de capital: elevar o colchão de capital para operações de custo altíssimo, tirando o incentivo dos bancos a ofertá-las.
O que observar daqui para frente
O desfecho depende da canetada do Conselho Monetário Nacional e de resoluções do Banco Central nos próximos meses. Para o empresário e o investidor, dois sinais merecem atenção: a velocidade da regulamentação sobre “ofertas não solicitadas” — que pode secar a originação em massa no topo de renda — e o resultado do leilão de novembro do Desenrola, termômetro real da capacidade de limpar o passivo podre sem novos choques de inadimplência.
