Tecnologia

Startup do ITA recebe R$ 25 mi da Finep para quebrar dependência de foguetes estrangeiros

Motor de propulsão líquida da startup do ITA testado em bancada com financiamento Finep
Teste de motor foguete nacional desenvolvido por startup do ITA com aporte de R$ 25 milhões da Finep

Uma startup nascida no ITA acaba de garantir R$ 25 milhões da Finep para desenvolver motores de propulsão líquida que podem colocar o Brasil no mapa dos lançamentos orbitais próprios. O aporte mira diretamente a dependência atual de foguetes estrangeiros para colocar satélites nacionais no espaço. A tecnologia em desenvolvimento promete mudar esse jogo — mas o caminho até o primeiro voo ainda reserva desafios técnicos e geopolíticos.

O motor que acende no fim da viagem

A verba financia dois pilares tecnológicos: um motor de estágio superior — aquele que ignita no vácuo para inserir o satélite na órbita final — e uma turbobomba capaz de alimentar motores de primeiro estágio desde a decolagem. Raphael Galate, cofundador e CFO da empresa, resume: a turbobomba é o que “destrava” a capacidade de construir foguetes completos, não apenas a etapa final.

O desenvolvimento ocorre em São José dos Campos, hub aeroespacial onde a startup mantém sua base. A escolha do local não é aleatória: a proximidade com o ITA, o INPE e o DCTA cria um ecossistema de talento e infraestrutura raro no país.

Por que isso importa para quem investe ou empreende

A soberania no acesso ao espaço deixou de ser assunto apenas militar. Segundo José Henrique Pereira, gerente de inovação da Finep, o movimento New Space — liderado por startups globais — reduziu custos e ampliou a frequência de lançamentos. Quem domina a propulsão própria passa a ditar regras comerciais, logísticas e estratégicas.

  • Autonomia comercial: satélites brasileiros (agro, telecom, defesa) deixam de ficar reféns de janelas de lançamento e preços estrangeiros.
  • Efeito multiplicador: cada real investido em propulsão gera demanda por materiais avançados, software de controle, testes de qualificação — cadeia inteira se fortalece.
  • Barreira de entrada: dominar turbobombas e motores criogênicos coloca o Brasil em clube restrito; poucos países têm essa capacidade soberana.

O laboratório universitário que alimenta a inovação

Paralelamente, pesquisadores da Univap avançam em um catalisador para decompor peróxido de hidrogênio de alta concentração — propelente “verde”, menos tóxico e mais manejável que hidrazina. O professor José Augusto Jorge Rodrigues, responsável técnico, alerta: a dependência geopolítica atual torna esse passo inicial indispensável, não opcional.

A parceria entre startup e universidade ilustra o modelo que tem funcionado no exterior: risco tecnológico compartilhado, propriedade intelectual negociada desde o início, talentos formados in loco.

O que observar daqui para frente

O próximo marco técnico será a qualificação da turbobomba em bancada — teste que valida se o componente suporta rotações extremas e variações térmicas do voo real. A Finep não divulgou cronograma público, mas ciclos típicos de desenvolvimento de propulsão líquida variam entre 36 e 48 meses até o primeiro voo de demonstração.

Para investidores e gestores de inovação, três indicadores merecem monitoramento contínuo: contratos de lançamento assinados antes do voo inaugural (sinal de tração comercial), parcerias com operadores de satélites nacionais e eventuais rodadas follow-on que diluam ou não a participação da Finep. O espaço deixou de ser fronteira — virou ativo de balanço.