A Claro finalizou nesta quinta-feira (1º) a compra de 72,83% da Desktop por R$ 1,747 bilhão, consolidando-se como player dominante no mercado de banda larga fixa fora dos grandes centros urbanos. A operação, fechada via Claro NXT Telecomunicações, transfere 84,7 milhões de ações ordinárias e redesenha o mapa da conectividade no interior paulista e em regiões estratégicas do Sul e Centro-Oeste.
O valor equivale a R$ 20,63 por ação, mas a conta final ainda depende de ajustes que se estendem até 2026. Entender a estrutura do negócio revela por que essa aquisição vai além de uma simples troca de controle acionário.
Como o dinheiro será pago — e o que fica retido
Do total anunciado, R$ 1,620 bilhão entram no caixa dos vendedores na data de fechamento. Desse montante, R$ 20 milhões ficam retidos como garantia para eventual ajuste de endividamento líquido apurado em 30 de setembro de 2026.
Outros R$ 127,5 milhões permanecem em conta de garantia (escrow) para cobrir obrigações de indenização dos vendedores relacionadas a demandas específicas. Essa parcela terá liberações mensais escalonadas conforme cronograma contratual.
- Parcela de fechamento: R$ 1,620 bi (inclui R$ 20 mi retidos)
- Conta de garantia (escrow): R$ 127,5 mi com liberação mensal
- Ajuste final: após apuração da dívida líquida em 30/09/2026
Nova gestão: nomes da Claro no comando operacional
A mudança de controle trouxe troca imediata na diretoria estatutária. Rodrigo Marques assume a presidência executiva, enquanto Roberto Catalão Cardoso acumula as vice-presidências financeira e de relações com investidores. Ambos são quadros da Claro, sinalizando integração acelerada.
Os fundadores e ex-diretores Denio Alves Lindo, Bruno Silva Carvalho de Souza Leão, Benício Silva Gontijo, André Falcão Ribeiro e Glauno Herton Brandão Junior deixam os cargos estatutários, mas permanecem na empresa em novas funções — movimento que busca preservar conhecimento operacional e relacionamentos regionais.
No conselho de administração, entram José Felix, Rodrigo Marques e Roberto Catalão nas vagas de Débora Mayor Vizeu, Bernardo Varela Mello e Ana Regina Roson. Uma assembleia extraordinária será convocada para ratificar ou completar a composição do colegiado.
Oferta aos minoritários e saída do Novo Mercado
Com o controle assegurado, a Claro NXT protocolará na CVM pedido de registro de OPA (Oferta Pública de Aquisição) destinada aos acionistas remanescentes — cerca de 27% do capital. O preço por ação será o mesmo pago aos vendedores controladores, considerados os ajustes de endividamento e a parcela diferida.
A oferta reunirá três modalidades em um único edital: aquisição por alienação de controle (obrigatória), conversão de registro de categoria A para B e saída do Novo Mercado da B3. A compradora pode desistir das duas últimas e manter apenas a OPA obrigatória.
Ainda não há definição sobre eventual fusão, cisão ou incorporação da Desktop à estrutura da Claro.
O que exigiram Cade e Anatel para aprovar
A Superintendência-Geral do Cade aprovou a operação sem restrições em setembro. A Anatel concedeu anuência em maio, impondo condição relevante: consolidar a ocupação das redes em um único ponto de fixação por poste em até 24 meses após o fechamento.
Na análise concorrencial, a Claro apresentou como justificativa a migração de clientes atendidos por cabo coaxial (tecnologia legada) para a rede de fibra óptica da Desktop. O plano de migração e seu cronograma integram os fundamentos da aprovação.
Por que essa compra importa para o mercado corporativo
A Desktop construiu capilaridade em 180 cidades, majoritariamente no interior de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Goiás. São regiões onde a Claro tinha presença limitada em banda larga fixa de alta velocidade.
A integração das redes permite à Claro ofertar pacotes convergentes (móvel + fixa + TV) com infraestrutura própria em praças onde antes dependia de parcerias ou não atuava. Para o cliente corporativo, isso significa SLAs mais previsíveis, redundância de rotas e poder de negociação com um único fornecedor nacional.
O risco de concentração foi avaliado pelo Cade e considerado mitigado pela existência de outros provedores regionais e pela dinâmica de migração tecnológica — a fibra da Desktop substitui, em parte, a rede coaxial envelhecida da Claro.
O que observar nos próximos 24 meses
Três frentes definirão se a tese de investimento se concretiza: a execução do plano de unificação de postes (prazo Anatel), a velocidade de migração da base coaxial para fibra e a adesão dos minoritários à OPA — que ditará se a Desktop permanece listada ou vira subsidiária integral.
O ajuste de preço final, atrelado à dívida líquida de setembro de 2026, adiciona variável financeira que pode alterar o múltiplo efetivo da transação. Enquanto isso, a manutenção dos fundadores em posições-chave será teste prático da capacidade de integração cultural entre operadora nacional e provedor regional.
Para quem negocia contratos de conectividade corporativa, o sinal é claro: a estrutura de fornecimento no interior do país está mudando. Revisar cláusulas de exclusividade, SLAs e rotas de redundância nos próximos trimestres não é precaução — é necessidade competitiva.
