Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, crava: o presidente da República é o dono da política fiscal e quem vencer a eleição terá de liderar o ajuste das contas públicas com respaldo popular. Sem esse sinal claro, os juros reais seguem em 8% ao ano e o câmbio reflete a incerteza.
O executivo, que comandou o Tesouro Nacional entre 2020 e 2021, desenha três cenários para o dia seguinte ao pleito. O desfecho define se a Selic cai para 11% ou estanca em patamares mais altos.
Os três caminhos pós-eleição
Funchal trabalha com uma gradação de possibilidades. No cenário base, o governo eleito promove ajustes mínimos: flexibiliza vinculações de saúde e educação, mexe na regra do salário mínimo e reduz o teto de crescimento da despesa de IPCA + 2,5% para IPCA + 2%.
No cenário otimista, o ajuste é profundo — ataca a rigidez orçamentária de frente e mira superávit primário de 2% do PIB para estabilizar a dívida. No pessimista, nenhuma medida sai do papel e os preços de mercado embutem o risco.
- Cenário base: ajustes pontuais, flexibilidade orçamentária tímida
- Cenário profundo: desvinculação ampla, revisão do Fundeb, superávit de 2% do PIB
- Cenário de inércia: nenhuma medida, dívida crescente, juros e câmbio sob pressão
Por que o lado da despesa importa mais
Aumentar receita freia a atividade privada. Cortar gasto tributário — renúncias, incentivos, subsídios — equivale a elevar impostos. Funchal argumenta que a potência do ajuste fiscal reside na despesa: 93% do Orçamento já nasce carimbado por leis passadas, sobrando margem quase nula para investimentos modernos, como infraestrutura para inteligência artificial.
Essa rigidez explica por que regras fiscais sucessivas falharam: o Orçamento não conversa com a regra. A experiência europeia (Espanha, Portugal, Grécia) mostra que desvincular e rever indexadores abre espaço para crescer menos a despesa e, no fim do dia, derrubar o juro.
O que o mercado já está cobrando
A NTN-B paga 8% de juro real ao ano. O prêmio de risco está precificado. Se a dívida continuar subindo, o ajuste virá via preços — juros mais altos e dólar pressionado —, não por escolha política.
Bradesco projeta duas quedas de 0,25 ponto percentual ainda em 2024, levando a Selic a 13,25%. Em 2025, a continuidade do ciclo depende do fiscal: com agenda rigorosa, a taxa pode chegar a 11%. Sem ela, a queda virá apenas por desaceleração econômica, sem o benefício da ancoragem de expectativas.
O efeito colateral no crédito
Juros altos por tempo prolongado já cobram a conta. Empresas usam receita para honrar despesa financeira recorrente; investimentos param porque o custo de capital exige retorno irreal. O varejo sofre na ponta: negócios na margem de lucratividade deixam de ser viáveis.
FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) absorveram parte do R$ 1 trilhão resgatado de multimercados e ações. A categoria financia pequenas empresas e agricultores, mas o caso Master expôs falhas de controle e fiscalização que precisam ser endereçadas sem matar a fonte de crédito.
O que observar daqui para frente
A sinalização do chefe do Executivo eleito — nos primeiros discursos, na escolha da equipe econômica e no envio de medidas ao Congresso — ditará se o Brasil captura a janela para juros de dois dígitos ou convive com prêmio de risco elevado por mais tempo. A flexibilização orçamentária, a regra do salário mínimo e a disposição para enfrentar gastos carimbados são os termômetros a monitorar nas primeiras semanas de governo.
