Economia

Alimentos no Maior Patamar em 4 Anos: O Que Vem Atrás Assusta

Gráfico mostra índice FAO de preços de alimentos em 136 pontos, maior nível desde novembro de 2022
Índice FAO atinge 136 pontos em setembro, alta de 1,5% impulsionada por choques no açúcar e trigo.

O índice de preços dos alimentos da FAO atingiu 136 pontos em setembro, o nível mais alto desde novembro de 2022. A alta de 1,5% frente a agosto não é um soluço pontual: ela reflete uma conjunção de choques climáticos e logísticos que começa a migrar das bolsas de commodities para a estrutura de custos das empresas. O tamanho da conta final depende de variáveis que ainda estão em aberto.

O choque do açúcar e do trigo: números que explicam a alta

Dois pilares sustentaram a escalada do índice geral. O açúcar disparou 6,1% no mês — terceira alta consecutiva —, atingindo o pico de 18 meses. O gatilho é o temor de que o El Niño reduza a oferta nas principais regiões produtoras justamente quando os estoques globais estão apertados.

Nos cereais, o avanço foi de 5,1%. O trigo tocou o maior valor em três anos logo no início de setembro, reflexo direto do colapso do corredor do Mar Negro. A isso soma-se a revisão para baixo da produtividade do milho nos Estados Unidos, criando uma pinça de oferta restrita em duas das principais commodities do planeta.

Óleos e carnes seguem roteiros opostos

Nem todos os subíndices caminharam na mesma direção, o que traz nuances importantes para a gestão de carteiras e compras corporativas:

  • Óleos vegetais: subiram 0,9%, puxados pelo óleo de palma. A demanda firme encontra incerteza climática no Sudeste Asiático, onde o El Niño ameaça a produção.
  • Carnes: recuaram 1,1%. A queda concentrou-se em aves, pressionadas pela redução da demanda da União Europeia após novas regras de importação entrarem em vigor.

Essa divergência impede generalizações: setores expostos a grãos e açúcar veem custos subirem, enquanto processadores de aves podem encontrar janela de alívio momentâneo.

O alerta da FAO para o varejo e países importadores

O economista-chefe da entidade, Maximo Torero, foi direto ao ponto: as interrupções no Estreito de Hormuz e no Mar Negro somam-se aos choques climáticos, pressionando energia, frete e alimentos simultaneamente. “Se persistirem, essas pressões logo serão repassadas aos preços ao consumidor, sobretudo em países dependentes da importação de alimentos e energia”, afirmou.

Para o empresário brasileiro, o recado tem endereço certo. Mesmo sendo grande exportador, o país importa insumos energéticos e fertilizantes sensíveis às rotas marítimas tensionadas. O repasse ao varejo interno não é automático, mas a janela de imunidade estreita a cada mês de índice em alta.

Produção recorde não impede corte no comércio global

Paradoxalmente, a FAO manteve a previsão de safra mundial de cereais para 2026 em 2,98 bilhões de toneladas — a segunda maior da história. O problema não é a quantidade colhida, mas a logística de escoamento.

A estimativa para o comércio global de cereais em 2026/27 foi cortada em 0,7% em relação ao mês anterior. A razão explícita: expectativas menores para exportações de trigo e milho devido às restrições de transporte no Mar Negro. Grão no silo não alimenta mercado se o navio não carrega.

O que observar daqui para a frente

Três variáveis ditam o próximo movimento dos preços e merecem monitoramento semanal:

  • Intensidade do El Niño: confirmar-se severo, açúcar e óleo de palma têm espaço para novas altas.
  • Corredor do Mar Negro: qualquer sinal de reabertura sustentada derruba o prêmio de risco do trigo e do milho.
  • Cotação do petróleo: frete e fertilizantes indexados à energia amplificam ou amortecem o choque primário.

O cenário base sugere volatilidade elevada no curto prazo, com viés de alta para a cesta de commodities alimentares. Quem compra em dólar e vende em moeda local deve incorporar prêmios de risco maiores nas planilhas de formação de preço para o primeiro semestre de 2025.