Economia

Escala 5×2 no setor aéreo: a proposta que pode fazer trabalhadores cruzarem os braços…

As empresas aéreas apresentaram a primeira contraproposta para a nova jornada dos aeroviários e a reação dos sindicatos foi imediata: rejeição total. O ponto central do conflito não é salarial, mas a forma como as folgas semanais seriam contabilizadas — e o impacto direto na vida de 45 mil profissionais.

A proposta patronal permite semanas de seis dias consecutivos de trabalho, desde que a média mensal resulte em duas folgas por semana. Na prática, o empregado pode folgar apenas um dia em determinada semana e compensar o descanso em outra. Para o SNA (Sindicato Nacional dos Aeroviários), isso desfigura a conquista da escala 5×2.

O que a proposta das companhias prevê na prática

Além da flexibilização das folgas semanais, o pacote traz mudanças que alteram a rotina operacional nos aeroportos. Veja os principais pontos:

  • Jornada semanal de 36 horas no lugar do limite diário de 6 horas, autorizando turnos de até 8 horas sem pagamento de hora extra após a 6ª hora;
  • Alteração de escala sem aviso prévio mínimo por “necessidade operacional”, com cumprimento obrigatório e sem adicional;
  • Fim da regra atual que exige comunicação da escala com cinco dias de antecedência e isenta o trabalhador de seguir mudanças de última hora.

Com intervalo intrajornada, a permanência no aeroporto pode superar nove horas diárias, segundo cálculos do sindicato laboral.

O custo da adaptação e o risco de dissídio

A Abesata, associação que reúne empresas de serviços auxiliares, estima que o fim da escala 6×1 eleve os custos do setor em 23,9% — um impacto anual de R$ 1,2 bilhão. O argumento é que a adequação exige contratações em massa, treinamento e certificação de novos funcionários em tempo recorde.

O presidente da entidade, Ricardo Miguel, alerta que a vigência da nova jornada coincide com a alta temporada de fim de ano, a partir de 16 de dezembro. “Não basta abrir vagas: é preciso encontrar pessoas, treiná-las e cumprir as exigências para que possam trabalhar em ambiente aeroportuário”, afirmou em nota.

Histórico recente mostra caminho para o TST

Não é a primeira vez que a negociação trava. Na data-base de 2025, o impasse levou ao dissídio coletivo no TST (Tribunal Superior do Trabalho), com homologação apenas em fevereiro deste ano. A convenção vigente fixa teto de 42 horas semanais e prevê esforço das empresas para adotar a escala 5×1 (cinco dias de trabalho, um de folga).

Agora, a batalha é pela segunda folga semanal garantida. A próxima rodada está marcada para 12 de novembro, com data-base em 1º de dezembro. O advogado do SNA, Álvaro Quintão, resume o clima: “Foi uma conquista histórica. Se não garantir o 5×2, não vejo margem para aprovação”.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis definirão o desfecho: a disposição das companhias em recuar da média mensal de folgas, a capacidade do setor de contratar e certificar pessoal antes de dezembro e a eventual judicialização se não houver acordo até a data-base. Para investidores e gestores, o sinal de alerta está no risco de paralisações parciais na alta temporada — cenário que pressiona margens justamente no período de maior receita.