Em São José do Rio Preto, mais de sete clubes de hobbies cobram para reunir mulheres em atividades manuais — e a fila de espera não para de crescer. O motivo real não é aprender a fazer velas ou cerâmica; tutoriais gratuitos na internet já ensinam isso. O que elas compram, na verdade, é tempo de presença.
O fenômeno expõe uma falha silenciosa na rotina adulta: entre trabalho, família e telas, marcar um café com amigas virou projeto de logística complexa. Pagar por um encontro com hora marcada e atividade pré-definida resolve o impasse da agenda e da iniciativa.
O clube nasceu de uma mulher cansada
Bruna Albanês criou o Clube Seiva depois de perceber que sua vida se resumia a planilhas e entregas. “A vida é muito mais do que trabalhar”, diz ela. A empreendedora identificou que a conexão constante pelo celular criava uma ilusão de proximidade: todo mundo online, ninguém presente.
Katerly Almeida seguiu caminho parecido ao fundar o Clube Criar. Após o ensino médio, sentiu o vazio deixado pelo fim da convivência escolar diária. Descobriu que não estava sozinha nessa sensação — e transformou a carência coletiva em negócio.
Ambas apostaram na mesma tese: uma atividade compartilhada funciona como quebra-gelo natural. Elimina o constrangimento do “o que a gente conversa?” e cria um ritmo próprio para a aproximação.
Por que só entre mulheres?
Participantes relatam que ambientes exclusivamente femininos permitem conversas que não acontecem em grupos mistos. A professora Flávia Laís Tumelero resume: “A gente pode se abrir mais, sente um clima mais leve, fala como se sente sem ser julgada”.
Katerly Almeida vai além: “Só nós entendemos nós mesmas. Não tem como explicar para um homem o que a gente sente e ele entender na totalidade”. A percepção de segurança psicológica aparece como diferencial decisivo para quem já tentou outros espaços de convivência.
- Atividades mais comuns: velas, cerâmica, bordado, pintura, macramê
- Perfil das participantes: 25 a 55 anos, maioria empregada ou empreendedora
- Frequência típica: encontros semanais ou quinzenais, 2 a 3 horas
- Custo médio: R$ 80 a R$ 200 por sessão (material incluso)
O primeiro passo é ir sozinha
A tatuadora Paulínia Gimenes não esperou companhia. Foi sozinha a uma oficina de bordado em foto e encontrou mulheres de idades e profissões variadas unidas pelo mesmo interesse. O detalhe: sair de casa para um ambiente novo reduziu distrações domésticas e tirou projetos do papel.
Para a anestesiologista Elaine Moraes da Silva, o bordado virou exercício de introspecção com plateia. “A troca presencial olho no olho é muito importante”, afirma. Ela destaca que o formato permite ajudas mútuas técnicas e conversas paralelas que não fluiriam num grupo de WhatsApp.
A ciência por trás da procura
Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde classificou a conexão social como questão de saúde pública. O relatório aponta: uma em cada seis pessoas no mundo sofre com solidão, associada a aproximadamente 871 mil mortes anuais.
A psicóloga Giovanna Belém Miyazaki, doutora em psicologia do desenvolvimento, explica que buscar convivência não é exceção — é regra biológica. Redes sociais simulam conexão, mas a atenção fragmentada torna as interações superficiais. Clubes presenciais forçam dedicação de tempo real.
“Mesmo entre desconhecidos, o interesse comum aumenta a chance de conexão genuína”, diz a especialista. Ela observa que esses espaços preenchem lacunas deixadas por trabalho, família e lazer tradicional — onde nem sempre há identificação ou abertura para novos vínculos.
O que observar daqui para frente
O modelo já testa variações: clubes temáticos (maternidade, carreira, luto), formatos corporativos para equipes e parcerias com marcas de materiais artísticos. A demanda reprimida por presença física sugere que o mercado de “terceiros lugares” pagos — nem casa, nem trabalho — deve se expandir além do interior paulista.
Para empreendedores, o sinal é claro: escassez de tempo e solidão adulta viraram oportunidades de negócio. Para quem participa, a conta fecha quando o valor da amizade supera o custo da inscrição.
