A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) consolidou um modelo que transforma pesquisa acadêmica em solução industrial real, conectando laboratórios a gigantes como Embraer, Petrobras e Whirlpool. O segredo não está apenas na ciência, mas na gestão ágil que elimina a espera por editais. Entender esse mecanismo pode ser a diferença entre inovar agora ou ficar para trás.
O fim da fila: inovação em fluxo contínuo
Diferente do modelo tradicional de fomento, a parceria com a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) permite que empresas batam na porta da universidade quando a necessidade surge. Não há calendário fixo nem concorrência por editais.
“É fluxo contínuo: a empresa tem a necessidade, ela nos procura e a gente encontra a solução”, resume o professor Rodrigo Vieira, responsável pela unidade Move. O processo começa com diagnóstico técnico, segue para proposta conjunta e, se preciso, assina-se acordo de confidencialidade para proteger segredos industriais.
Essa agilidade é vital para setores onde o ciclo de produto encolhe a cada ano. Para o empresário, significa reduzir o “time-to-market” de uma tecnologia crítica.
inoVARE: acústica, energia e refrigerção na prática
Criada em 2014, a unidade inoVARE já entregou mais de 40 projetos. O portfólio revela a amplitude: de conforto acústico em cabines da Embraer a eficiência energética para compressores da Nidec e eletrodomésticos da Whirlpool.
- Aeronáutica: mapeamento de ruído interno para redução de decibéis na cabine de passageiros.
- Energia e Refrigeração: otimização de ciclos termodinâmicos e análise de vibração em equipamentos rotativos.
- Petróleo e Gás: soluções de integridade mecânica e monitoramento para a Petrobras.
O denominador comum é a customização. Cada projeto nasce “a quatro mãos”, unindo o problema real da fábrica ao rigor metodológico da universidade.
Move: a aposta na mobilidade elétrica e aeroespacial
Mais nova, nascida em 2022 sob o guarda-chuva do programa Rota 2030, a unidade Move concentra 14 laboratórios e 80 pesquisadores focados em mobilidade de pessoas, cargas, veículos, naval e ferroviário. Já são 20 projetos contratados, metade concluída.
Dois eixos chamam atenção imediata do mercado:
- Eletrificação veicular: desenvolvimento de tecnologias para carregadores rápidos e infraestrutura de recarga.
- Engenharia aeroespacial: ferramentas de simulação para superfícies móveis de asas (flaps, slats), críticas para performance e segurança.
A duração média gira em torno de 18 meses, variando conforme a complexidade. É prazo de P&D real, não de piloto de laboratório.
O motor invisível: gestão especializada via FEESC
Universidades públicas travam em burocracia? A Fundação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina (FEESC) resolve o gargalo administrativo. Ela gere contratos, compras, prestação de contas e recursos humanos dos projetos.
Para o pró-reitor Jacques Mick, esse suporte é “fundamental para tornar a administração ágil e eficiente, sobretudo nas parcerias com o setor industrial”. Na prática, o pesquisador foca na ciência; a fundação garante que o dinheiro e os prazos caminhem no ritmo da empresa.
Pequenos negócios também têm assento à mesa
O modelo não é exclusivo de grandes corporações. Em modalidades específicas, aportes do governo federal e do Sebrae reduzem a contrapartida financeira de micro e pequenas empresas. Isso democratiza o acesso a laboratórios de ponta e cérebros de doutorado que, de outra forma, seriam inacessíveis para um player menor.
O que observar daqui para frente
A convergência entre descarbonização (eletrificação, eficiência energética) e digitalização (simulação avançada, gêmeos digitais) deve ditar a pauta dos próximos contratos. Empresas que mapearem seus gargalos tecnológicos agora e procurarem as unidades — inoVARE para térmica/acústica, Move para mobilidade/aero — ganham janela de vantagem competitiva.
O canal está aberto o ano todo. A barreira não é burocrática; é a decisão de transformar um problema técnico em projeto de inovação.
