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O segredo da plataforma que “encolheu” para cruzar a Ponte Rio-Niterói

Plataforma P-35 passando sob a Ponte Rio-Niterói durante transporte para desmonte
A plataforma P-35, com 27 mil toneladas, atravessa a Baía de Guanabara rumo ao estaleiro do Caju após "encolher" para passar sob a ponte.

A plataforma P-35, um colosso de 27 mil toneladas e 27 anos de serviço no Campo de Marlim, iniciou nesta segunda-feira (2) sua viagem final pela Baía de Guanabara rumo ao desmonte no estaleiro do Caju. Mas como uma estrutura de 330 metros de comprimento e 56 metros de altura conseguiu passar sob o vão central da Ponte Rio-Niterói, que oferece apenas 75 metros de folga?

A engenharia por trás da travessia

A resposta está em uma cirurgia prévia: partes do topo da unidade foram desmontadas ainda no mar para reduzir a altura total e garantir a passagem segura. A operação mobilizou sete rebocadores posicionados estrategicamente ao redor do casco, além de um comboio de cerca de 100 agentes e técnicos da Marinha, Petrobras, Inea e Corpo de Bombeiros.

O planejamento levou em conta janelas de maré e condições meteorológicas específicas. Qualquer desvio poderia comprometer a integridade da ponte ou causar incidentes ambientais na baía.

De petroleiro a protagonista do pré-sal

A história da P-35 começou antes do primeiro barril extraído em Marlim. Originalmente um navio-tanque, a unidade foi convertida em FPSO (unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência) e entrou em operação em 1997.

Durante quase três décadas, processou petróleo em um dos campos mais prolíficos da Bacia de Campos. O casco carrega marcas visíveis do tempo: corrosão, reparos e adaptações que contam a evolução da indústria offshore brasileira.

O que está em jogo no descomissionamento

O desmonte no estaleiro do Caju não é apenas sucateamento. Envolve:

  • Separação e destinação correta de materiais perigosos (amianto, metais pesados, resíduos de petróleo)
  • Reciclagem de aço — estimativas do setor indicam reaproveitamento superior a 85% da estrutura metálica
  • Geração de empregos temporários especializados em corte a frio, logística reversa e monitoramento ambiental

Para investidores e empresários do setor, o caso serve de parâmetro: o Brasil começa a enfrentar a onda de descomissionamento de ativos maduros, com custos que podem superar US$ 1 bilhão por grande unidade nos próximos anos.

Por que isso pode mudar o planejamento portuário

A travessia expôs gargalos logísticos. A dependência de janelas de maré e a necessidade de desmontagem parcial antes da entrada no canal mostram que a infraestrutura portuária do Rio não acompanhou o crescimento das unidades offshore.

Estaleiros e terminais que anteciparem adaptações — como docas mais fundas, guindastes de maior alcance e licenciamento ambiental pré-aprovado para desmonte — capturarão fatia relevante desse mercado emergente.

O que observar daqui para frente

A P-35 é a primeira de uma fila. A ANP estima que mais de 30 plataformas entrem em fase de descomissionamento até 2030 apenas na Bacia de Campos. Cada unidade trará desafios únicos de logística, cronograma e custo. Quem dominar a cadeia — da engenharia reversa à reciclagem certificada — definirá o padrão da indústria nos próximos dez anos. Acompanhe os editais de áreas maduras e os planos de desativação da Petrobras: eles ditam o ritmo do novo ciclo de negócios.