Justiça

Você não vai acreditar: influenciadora de direita denuncia “caça às bruxas” contra eleitores de Lula

Julie Milk, influenciadora de direita, denunciando assédio eleitoral contra eleitores de Lula
Influenciadora Julie Milk rompe com ala bolsonarista ao chamar demissões de eleitores de Lula de "fascismo puro"

A jornalista e influenciadora Julie Milk, conhecida por ter apoiado a eleição de Flávio Bolsonaro, rompeu com aliados ideológicos ao classificar como “fascismo puro” a onda de demissões motivadas pelo voto no presidente Lula. O Ministério Público do Trabalho já contabiliza 3.290 denúncias de assédio eleitoral apenas neste pleito.

O número assusta: mais de um terço dos registros chegou ao órgão em apenas três dias úteis após o segundo turno. O que explica essa explosão de casos e quais as consequências reais para empresas e trabalhadores?

O estopim: vídeos que viralizaram na própria base

Em publicações recentes nas redes sociais, Milk não poupou críticas a políticos e influenciadores de direita que incentivam a dispensa de funcionários declaradamente petistas. “Um bando de gente rica caçando uma turma que trabalha, que vive do salário”, disparou.

A influenciadora, que foi candidata a deputada federal pelo PSD em São Paulo, ironizou a correria por pedidos de desculpas assim que o Ministério Público passa a atuar. “Todo mundo é valente até entrar o MP na parada”, afirmou em vídeo.

Ela se autointitula “direita intelectual” e diz sentir vergonha de ver amigas participando do que chama de “caça às bruxas”. A ruptura expõe rachas internos no espectro político que apoiou o governo anterior.

Dados do MPT revelam dimensão inédita do problema

Os números oficiais mostram um fenômeno atípico para o período pós-eleitoral. Confira o recorte temporal:

  • Total de denúncias em 2022: 3.290
  • Registros entre 23h59 de domingo (25/10) e 15h40 de quarta (28/10): 1.143
  • Participação do período de 3 dias: 34,7% do total

Procuradores do Trabalho classificam a concentração de queixas como “fora da curva histórica”. O volume sugere ação coordenada ou efeito manada estimulado por discursos públicos de lideranças.

O que diz a lei e quais os riscos para o empregador

A legislação brasileira é clara: a Lei 9.029/1995 proíbe qualquer prática discriminatória na relação de trabalho, incluindo a motivação política. Demitir pelo voto configura ato ilícito passível de:

  • Indenização por danos morais
  • Reintegração do empregado com pagamento de salários do período afastado
  • Multas administrativas pelo MPT
  • Possível enquadramento criminal por coação eleitoral

Advogados trabalhistas alertam que a prova do motivo real costuma ser facilitada quando o próprio empregador expõe a intenção em redes sociais ou grupos de WhatsApp — prática relatada em diversas denúncias.

O efeito reverso: arrependimento público e tentativas de blindagem

Milk revelou ter visto “mais de 10 vídeos de pedidos de desculpa” de empresários e influenciadores que incentivaram as demissões. A corrida para apagar rastros digitais, porém, não apaga a responsabilidade civil nem trabalhista.

O Ministério Público do Trabalho já instaurou procedimentos investigatórios em vários estados. A expectativa é que termos de ajuste de conduta (TACs) e ações civis públicas comecem a ser ajuizados nas próximas semanas.

O que observar daqui para frente

O cenário coloca departamentos de RH e jurídicos em alerta máximo. Empresas que não possuem políticas claras de vedação a assédio eleitoral tornam-se alvos fáceis. A recomendação unânime de especialistas: documentar processos decisórios, treinar lideranças e canalizar denúncias internas antes que cheguem ao MPT. O custo da prevenção é infinitamente menor que o de uma ação coletiva por discriminação política.