Economia

Final épica expõe abismo financeiro da Conmebol com o futebol feminino

Jogadoras do Cruzeiro comemoram título da Libertadores Feminina 2024 em Quito após disputa de pênaltis contra Corinthians
Cruzeiro campeão da Libertadores Feminina 2024: virada histórica nos pênaltis expõe abismo financeiro da Conmebol.

Cruzeiro e Corinthians protagonizaram uma virada histórica na altitude de Quito, decidindo o título nos pênaltis após um 4 a 4 que quebrou recordes de gols em finais únicas. O espetáculo em campo, porém, escancara uma contradição brutal nos bastidores: a entidade que organiza o torneio paga uma fração do valor masculino e comprime a preparação em dias, não meses.

A campeã Cruzeiro levou US$ 2 milhões. O campeão da Libertadores masculina embolsa US$ 25 milhões. A diferença de 12,5 vezes não é um detalhe burocrático; é a métrica exata de onde a Conmebol coloca sua prioridade estratégica.

O custo da improvisação

A final foi disputada a 2.850 metros de altitude, em gramados desgastados por seis jogos em 16 dias. As atletas chegaram exaustas, com apenas três dias de adaptação — contra a pré-temporada de semanas que times masculinos têm para decisões continentais.

Mesmo sob condições que seriam consideradas inadmissíveis no torneio masculino, o nível técnico surpreendeu. Oito gols, virada de três gols de desvantagem e disputa de pênaltis com cobranças alternadas até o goleiro definir. O produto entregou espetáculo; a gestão entregou precariedade.

O que os números revelam sobre o ativo

  • Premiação: US$ 2 milhões (feminino) vs US$ 25 milhões (masculino).
  • Formato: Torneio concentrado em duas semanas, dois estádios.
  • Contexto: Véspera de Copa do Mundo feminina na América do Sul.
  • Crescimento: Modalidade que mais expande no planeta, segundo a FIFA.

Investidores que olham para o retorno sobre capital (ROIC) encontram aqui um ativo subprecificado. A audiência global do feminino cresce a dois dígitos ao ano, patrocínios batem recordes sucessivos e a base de fãs é mais jovem e engajada digitalmente que a média do masculino.

O efeito nos clubes brasileiros

Corinthians e Cruzeiro montaram elencos competitivos com orçamentos que são “troco de café” perto das folhas masculinas. O Corinthians, heptacampeão continental, domina a América há anos gastando uma fração do que times medianos da Série A masculina gastam em reforços que não rendem.

Isso significa que a barreira de entrada para dominar o continente é baixa. Para um investidor ou dono de SAF, o custo de oportunidade de não ter um departamento feminino forte é altíssimo: perde-se visibilidade de marca, receita de patrocínio exclusivo e valorização do ativo clube.

Por que a Conmebol resiste à mudança

A entidade tem caixa. Os contratos de TV e patrocínio da Libertadores masculina geram superávit. A decisão de não equalizar — ou ao menos aproximar — as premiações e o calendário é política, não financeira. Alejandro Domínguez e a diretoria escolhem manter o status quo enquanto a FIFA pressiona por igualdade de condições para 2027.

Cada edição realizada no modelo atual é uma oportunidade perdida de valorização de direitos de transmissão e patrocínio “bundled” (casado). O mercado já paga mais pelo pacote completo; a entidade insiste em vender separado e barato.

O que observar daqui para frente

Três movimentos devem ditar o ritmo da valorização nos próximos 18 meses: a definição do formato da Libertadores 2025 (se mantém o “torneio-relâmpago” ou adota fase de grupos anual), a negociação centralizada de direitos de TV do feminino — hoje inexistente — e a pressão dos patrocinadores globais por metas ESG concretas.

Quem entrar agora, estruturando departamento, base e comissão técnica profissional, colhe o bônus de “first mover” quando a premiação saltar para dois dígitos de milhões. Quem esperar a Conmebol se mover chega atrasado na festa que as Cabulosas e as Brabas já provaram que sabem dar.