O debate sobre quem comandará a Fazenda ignora a variável que de fato dita a Selic: o gasto primário cresce quase o dobro da economia há duas décadas. Sem frear essa dinâmica, a taxa real não cai — pouco importa o nome na porta do gabinete.
Dados compilados desde 2003 mostram que, exceto em dois anos, a despesa primária real expandiu-se acima do PIB em todos os mandatos petistas. A média anual do gasto atingiu 7,8% contra 4% de crescimento econômico. Essa tesoura matemática explica por que o Banco Central mantém juros elevados: não é escolha, é consequência aritmética.
A conta que não fecha desde 2003
Em 2003, o gasto real recuou 3,9% enquanto a economia avançava 1,1%. O resultado foi um alívio temporário nos juros. Em 2025, a despesa subiu 1,9% ante 2,3% do PIB — única outra exceção. Nos demais 18 anos analisados, a regra foi clara: o setor público avança sistematicamente sobre a base produtiva.
Quando o gasto cresce mais que a economia de forma persistente, três mecanismos se ativam em cadeia:
- Pressão de demanda: o Estado compete por recursos escassos em plena capacidade produtiva
- Expectativa inflacionária: agentes antecipam alta de preços e indexam contratos
- Prêmio de risco: investidores exigem retorno maior para financiar a dívida pública
Por que a Selic não cede mesmo com meta fiscal
O arcabouço fiscal aprovado em 2023 limita o crescimento real da despesa a 2,5% ao ano. No entanto, a regra permite expansão acima do PIB potencial quando a economia cresce pouco — exatamente o cenário atual. Com o produto operando no teto da capacidade, qualquer alta real do gasto gera pressão imediata sobre preços.
O ministro Fernando Haddad elevou a receita com medidas tributárias e reduziu subsídios. O superávit primário melhorou, o que alivia a trajetória da dívida e reduz o risco-país. Mas o juro real de equilíbrio — aquele que compatibiliza poupança e investimento sem gerar inflação — só cai se o crescimento da despesa for estruturalmente inferior ao do PIB.
O que a liderança ainda não endereçou
Reformas que alterem a inércia do gasto obrigatório — previdência, pessoal, piso constitucional de saúde e educação — não avançaram. Sem elas, a despesa primária tende a acelerar automaticamente a cada ano, independentemente da vontade política momentânea.
Cenários projetados pelo mercado para 2026-2028 indicam:
- Crescimento potencial do PIB entre 1,5% e 2% ao ano
- Expansão natural do gasto obrigatório acima de 3% real
- Déficit primário recorrente mesmo com receita cheia
O que observar nos próximos trimestres
Três sinais dirão se a equação dos juros pode mudar: (1) envio de PEC que desindexe despesas obrigatórias da receita corrente líquida; (2) proposta de reforma administrativa que contenha a folha de servidores; (3) disposição política para vetar aumentos reais de benefícios acima da inflação. Sem pelo menos dois desses pilares, a Selic real permanecerá no patamar atual — 5,5% a 6% ao ano — independentemente de quem assine as portarias do Ministério da Fazenda.
