Um novo livro organizado por Fabio Giambiagi, Letícia Magalhães e Paulo Faveret expõe uma transição brutal: a inteligência artificial não está apenas substituindo tarefas, está desmontando a porta de entrada para profissões de alto valor. A obra “Trabalho e Emprego Onde?” (Editora Lux, 382 págs., R$ 89) reúne especialistas para provar que o choque é assimétrico — cria riqueza no topo, mas apaga os degraus de acesso para a base.
O dado mais chocante vem do campo, mas o alerta vale para escritórios e órgãos públicos. Entender essa mecânica é o primeiro passo para não ficar para trás.
O paradoxo do agronegócio: menos gente, muito mais valor
O capítulo assinado por Roberta Cristina Possamai, Luís André da Costa Diz e Felippe Serigati revela uma transformação sem precedentes na lavoura. A automação expulsou a mão de obra braçal, mas multiplicou a produtividade por hora a níveis históricos.
Os números não deixam dúvida sobre a magnitude da mudança:
- Queda de 23,8% nos trabalhadores diretos (2012-2025): de 10,2 mi para 7,8 mi de pessoas.
- Salto de 444% na produtividade/hora (1995-2024): de R$ 7,50 para R$ 40,80.
- Alta de 107,6% na contratação de profissionais com ensino superior no setor.
- Ganho real de 33% no rendimento médio dos trabalhadores agrícolas.
O efeito transbordou para as cidades do entorno. Nos “Clusters Agro”, a taxa de desocupação caiu para 5,1% em 2025, impulsionando 53,4 milhões de vagas no setor de serviços. Serigati resume o momento da IA no campo como “estar numa sala escura cheia de objetos”: o impacto real hoje está na gestão e no comércio, não no plantio.
O gargalo invisível: onde ficam os juniores?
Se no agro a tecnologia puxou a qualificação para cima, no mundo corporativo e no serviço público ela está comendo a base da pirâmide. Felipe Buchbinder, Ana Barufi, Francisco Gaetani e Luiz Alberto dos Santos detalham como a IA generativa assume tarefas de entrada: relatórios, análises preliminares, codificação básica.
O resultado é um vácuo perigoso. Cargos de nível júnior — tradicionalmente a “escola prática” para desenvolver julgamento e intuição — estão esvaziados. Ao mesmo tempo, posições sêniores seguem valorizadas, mas exigem do novato competências que antes levavam anos para amadurecer: pensamento sistêmico, liderança e curadoria algorítmica.
Sem a “escada”, o jovem profissional entra no mercado já no degrau do meio, sem saber como subiu até lá.
Serviço público: o encolhimento silencioso
O diagnóstico para a administração federal é ainda mais urgente. Gaetani e Santos mapearam cerca de 104 mil cargos civis (20% do total) com alta propensão à automação. A vulnerabilidade máxima concentra-se em:
- Suporte na saúde e educação;
- Rotinas administrativas repetitivas.
Como a estabilidade veda demissões em massa, o ajuste ocorrerá por omissão: aposentadorias não repostas. O risco sistêmico, porém, é o déficit de talento digital num quadro funcional com idade média próxima dos 50 anos. A migração para a “governança algorítmica” deixa de ser modernização e vira questão de sobrevivência institucional.
O tabuleiro global: capacitação virou segurança nacional
Na análise de Marcello Pio e Rodrigo Mendes Leal, a IA não age sozinha. Ela se soma à transição verde e às tensões geopolíticas, forçando governos a tratarem requalificação e regulação como prioridades de defesa. Não é mais política trabalhista; é estratégia de Estado.
O que observar daqui para frente
O fechamento do livro aponta para uma única variável decisiva: a velocidade da requalificação. Para o empresário, o desafio é desenhar novos programas de mentoria que substituam a aprendizagem “no osso” que a IA eliminou. Para o gestor público, a urgência é atrair perfis digitais antes que a máquina torne a estrutura obsoleta. Para o profissional, a lição é clara: a proteção não está no cargo, mas na capacidade de pilotar a ferramenta — e não em competir com ela.
