Um fundo de private equity de Hong Kong fechou a compra de 51% da Evergrande Property Services por US$ 513 milhões, marcando a maior recuperação de ativos para credores desde a falência da gigante imobiliária. A operação, no entanto, veio com um desconto agressivo de 30% sobre a cotação de tela e deixa uma pergunta no ar: será este o modelo para as próximas vendas?
A transação injeta dinheiro novo na massa falida, mas expõe o tamanho do buraco: dos US$ 46 bilhões reivindicados, menos de 1% foi recuperado até agora.
O negócio por trás dos números
A PAG, comandada pelo veterano Weijian Shan, pagará o equivalente a R$ 2,76 bilhões pelo controle da subsidiária de serviços prediais. Outros R$ 407 milhões (500 milhões de yuans) cobrirão custos dos liquidantes da Alvarez & Marsal.
O preço representa quase um terço a menos do valor de fechamento das ações na véspera do anúncio. Para Eddie Middleton, liquidante responsável, o resultado de um “processo amplo e competitivo” é satisfatório, embora ele admita que “ainda há muito trabalho a ser feito” para concluir a transferência.
Uma gota no oceano da dívida
O contexto coloca a vitória em perspectiva. Desde a liquidação judicial em Hong Kong, no ano passado, os administradores recuperaram apenas US$ 436 milhões. O passivo total da Evergrande ultrapassa US$ 300 bilhões — o maior do setor imobiliário global.
Os liquidantes já classificaram a recuperação de ativos na China continental como “remota”. Isso transforma a venda da unidade de serviços, antes vista como a “joia da coroa”, em um evento isolado, e não no início de uma maré de liquidez.
O que explica o colapso histórico
- Modelo de financiamento: Uso de pagamentos antecipados de compradores de imóveis (pre-sales) para alavancar novos lançamentos.
- Gatilho: Crise de liquidez em 2021, impossibilitando a entrega de apartamentos e o pagamento de fornecedores.
- Fraude contábil: Receitas inflacionadas artificialmente nos anos anteriores à quebra, segundo investigações.
Frentes judiciais que definem o futuro
A venda não encerra a novela. Os liquidantes movem ações contra a PwC na China e em Hong Kong, cobrando US$ 8,5 bilhões por falhas na auditoria. Paralelamente, uma revisão judicial pode anular um acordo de HK$ 1 bilhão (R$ 690 milhões) firmado entre a PwC Hong Kong e o regulador local.
O argumento central: o acordo priorizou acionistas minoritários em detrimento da prioridade legal dos credores. Se a justiça der razão aos liquidantes, o montante recuperável sobe consideravelmente.
O fantasma da venda fracassada de 2021
Vale lembrar: antes da falência, a Evergrande tentou vender essa mesma participação para a rival Hopson por HK$ 20 bilhões (R$ 13,6 bilhões). O negócio melou. A comparação escancara a destruição de valor — a PAG leva o ativo por uma fração desse preço.
Na sexta-feira (30), o mercado reagiu com ceticismo: as ações da Evergrande Property Services caíram 17,7%, derrubando o valor de mercado para HK$ 10,5 bilhões (R$ 7,06 bilhões).
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: a conclusão efetiva da transferência para a PAG (sujeita a aprovações regulatórias), o desfecho das ações contra a PwC e a capacidade dos liquidantes de acessar ativos retidos na China continental. Para investidores e credores, a lição está dada: recuperações expressivas dependem mais de vitórias jurídicas do que de vendas de ativos operacionais.
