Um grupo que transmitia assaltos ao vivo no TikTok matou o engenheiro ambiental Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, durante um ato político em Santos. A polícia confirma que os mesmos suspeitos cometeram pelo menos cinco outros roubos naquela madrugada — todos exibidos em tempo real para dezenas de espectadores. O detalhe que muda tudo: a plataforma baniu a conta apenas depois da repercussão.
Marcelo participava de uma apresentação da Banda Esquerdantina, evento em apoio à reeleição do presidente Lula, quando se afastou para ir ao banheiro. Minutos depois, foi abordado, agredido e roubado. O soco que o derrubou partiu de um adolescente de 17 anos que pratica boxe, segundo a investigação. A vítima morreu dias depois na Santa Casa.
O padrão por trás da transmissão ao vivo
O delegado seccional Rubens Eduardo Barazal Teixeira revelou que o grupo não agiu por impulso. Os criminosos planejaram a noite: usaram a multidão do evento como cobertura e a transmissão ao vivo como vitrine. Um menor de 16 anos aparece no vídeo puxando o celular de uma mulher sentada na calçada. A ação dura segundos. A narração comemora o “feito”.
Essa não foi a única investida. Segundo a Polícia Civil, há registros de:
- Cinco furtos e roubos de celulares e correntinhas na mesma madrugada
- Oito suspeitos identificados: seis adolescentes e dois adultos
- Antecedentes por atos infracionais análogos a roubo e furto entre os investigados
A motivação política ou homofóbica foi descartada. O enquadramento é latrocínio — roubo seguido de morte.
Como a investigação avançou em 72 horas
A cronologia das prisões e apreensões mostra a pressão por respostas:
- Sábado (24): Crime ocorre por volta das 2h; vítima socorrida à Santa Casa
- Terça (27): Dois adolescentes apreendidos (14 e 17 anos); o mais velho fugira para Itariri
- Quarta (28): Mais um adolescente apreendido; prisão temporária decretada para adulto dono da conta no TikTok
Mandados de internação provisória (adolescentes) e prisão temporária (adultos) foram expedidos contra os demais foragidos. A polícia orienta outras vítimas daquela madrugada a registrarem boletim de ocorrência.
O papel da plataforma e a brecha na moderação
As transmissões eram vistas ao vivo por dezenas de pessoas. O TikTok removeu a conta apenas após a repercussão nacional. Especialistas em segurança digital apontam que a moderação reativa — baseada em denúncias — falha diante de crimes transmitidos em tempo real. O algoritmo amplifica conteúdo violento enquanto a equipe de revisão chega atrasada.
O caso reacende o debate sobre responsabilidade civil das big techs no Brasil. O Marco Civil da Internet prevê remoção sob ordem judicial, mas não define dever de monitoramento proativo. Projetos de lei em tramitação no Congresso tentam preencher essa lacuna.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem atenção nos próximos dias: o desfecho dos mandados contra os foragidos, a resposta do TikTok às autoridades brasileiras sobre dados da transmissão e eventuais ações civis por danos morais e materiais contra a plataforma. Para gestores de segurança pública e investidores em tecnologia, o caso expõe a fronteira frágil entre liberdade de expressão e facilitação de crimes em tempo real.
Marcelo se preparava para estudar fora do país. O pai dele acompanha cada passo da investigação. A justiça, agora, corre contra o relógio da impunidade.
