Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou sete municípios nas regiões de São José do Rio Preto e Araçatuba no segundo turno de 2026, mas Flávio Bolsonaro (PL) levou a melhor em 137 cidades. A virada mais emblemática aconteceu em Turmalina, única localidade onde o petista reverteu a derrota do primeiro turno. Os números, divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, revelam um mapa eleitoral profundamente dividido.
A abstenção caiu em relação à etapa anterior, sinalizando maior engajamento do eleitorado. Mas o que esse padrão diz sobre o futuro político do interior paulista? A resposta está nos detalhes de cada colégio eleitoral.
A virada que ninguém esperava em Turmalina
Com 1.669 habitantes, Turmalina foi o palco da única reviravolta da região. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro liderava com 47,08% (668 votos) contra 44,19% de Lula (627 votos). No domingo decisivo, o cenário inverteu: o petista fechou com 51,25% (776 votos) ante 48,75% do adversário (738 votos). Uma diferença de apenas 38 votos.
Brancos e nulos somaram 57 votos no segundo turno, indicando que a polarização não absorveu todo o eleitorado. O movimento de virada sugere migração de votos de outros candidatos ou comparecimento seletivo de eleitores que haviam se abstido.
Onde Lula ampliou a vantagem com folga
Em Itapura, menor município da lista com 3.979 moradores, o presidente reeleito saltou de 62,57% para 68,61% dos votos válidos — a maior porcentagem da região. A votação absoluta cresceu de 1.583 para 1.845 votos, enquanto Flávio oscilou de 793 para 844.
Dolcinópolis (2.207 habitantes) seguiu roteiro semelhante: Lula subiu de 53,82% para 58,01%. Castilho, maior colégio do grupo com quase 20 mil habitantes, viu a frente petista saltar de 238 para 696 votos, fechando em 52,89% contra 47,11%.
- Itapura: 68,61% Lula | 31,39% Flávio
- Dolcinópolis: 58,01% Lula | 41,99% Flávio
- Turmalina: 51,25% Lula | 48,75% Flávio (virada)
- Castilho: 52,89% Lula | 47,11% Flávio
- Gastão Vidigal: 52,68% Lula | 47,32% Flávio
- Populina: 52,81% Lula | 47,19% Flávio
- São João de Iracema: 52,94% Lula | 47,06% Flávio
O padrão por trás dos sete municípios
O que une Itapura, Dolcinópolis, Turmalina, Castilho, Gastão Vidigal, Populina e São João de Iracema? Todos são municípios de pequeno e médio porte, com economias ligadas ao agronegócio e ao setor de serviços. Em seis deles, Lula já liderava no primeiro turno e apenas consolidou a dianteira. A exceção, Turmalina, expõe a volatilidade de colégios menores.
Em Gastão Vidigal (3.252 habitantes), a margem mal se moveu: 48,91% para 52,68%. Populina (4.127 habitantes) viu a vantagem saltar de 37 para 162 votos. São João de Iracema, menor colégio analisado com 1.846 moradores, manteve a tendência e fechou com frente de 81 votos.
O domínio esmagador do outro lado
Mas o dado que mais chama atenção não está nas sete vitórias petistas. Flávio Bolsonaro venceu em 137 municípios da mesma região — uma proporção de quase 20 para 1. Em cidades maiores e médias, a vantagem do candidato do PL frequentemente superou os 60% dos votos válidos.
Esse desequilíbrio geográfico reflete a divisão ideológica que estrutura a política paulista há décadas. O interior profundo, mais conservador e ligado ao agro, segue fiel ao projeto bolsonarista. Os bolsões de voto petista concentram-se em municípios específicos, muitas vezes com perfil socioeconômico distinto.
Mas o efeito mais relevante aparece quando se cruza esses dados com a evolução do eleitorado desde 2022.
O que observar daqui pra frente
A queda da abstenção no segundo turno indica que a polarização mobilizou eleitores que haviam ficado em casa na primeira etapa. Para 2026 e além, três variáveis merecem monitoramento: a taxa de comparecimento em municípios médios, a migração de votos entre turnos em colégios abaixo de 5 mil eleitores e a capacidade de cada campo de converter maioria local em representação parlamentar.
Empresários e investidores com atuação na região devem mapear não apenas quem venceu, mas a margem de vitória. Municípios com resultados apertados — como Turmalina, Gastão Vidigal e Populina — tendem a ser mais sensíveis a políticas públicas federais e estaduais, o que impacta diretamente o ambiente de negócios local.
