Cultura

O segredo que líderes ignoram quando o país se divide ao meio…

Brasil dividido ao meio politicamente com referência histórica à queda de Roma em 410 d.C.
A polarização política no Brasil espelha a crise de Roma: 52,7% já romperam laços por política.

O Brasil acorda na segunda-feira rachado quase exatamente ao meio, com cerca de 20% do eleitorado fora da conta. Para a metade derrotada, a sensação será de “fim do mundo” — e os dados mostram que 52,7% dos brasileiros já romperam laços pessoais por causa de política. Como tomar decisões racionais num cenário assim?

A resposta não está nas urnas, mas num sermão de 1.600 anos atrás.

Quando Roma caiu, o mundo não acabou

Em 24 de agosto de 410, visigodos saquearam a Cidade Eterna após oito séculos de invencibilidade. São Jerônimo decretou: “O mundo pereceu numa única cidade”. A polarização era imediata: pagãos culpavam cristãos, cristãos culpavam pagãos. A culpa do “apocalipse” sempre recai sobre o outro lado.

Santo Agostinho, diante do caos, escreveu o Sermão sobre a Queda de Roma. Sua tese central: quem confunde a própria tribo com o mundo inteiro vive toda derrota como apocalipse. A pergunta que ele fez ecoa hoje: “Roma, afinal, o que é, senão os romanos?”.

Troque “Roma” por “Brasil” e a lição muda de figura.

As duas cidades que todo líder gerencia

Agostinho ensinou que toda sociedade abriga duas cidades invisíveis: uma erguida no amor egoísta a si mesmo, outra no amor ao próximo. Impérios, governos e empresas construídos na primeira são frágeis; suas quedas são apenas renovações disfarçadas. “Entre os inimigos escondem-se futuros concidadãos”, escreveu ele.

No ambiente corporativo, isso se traduz numa escolha prática: usar a divergência para erguer barreiras ou para lançar estradas.

O custo da fragmentação em números

  • 52,7% dos brasileiros já se afastaram de alguém por divergência política.
  • Rejeição mútua entre os dois polos beira a simetria perfeita.
  • Um quinto do eleitorado optou por não participar da decisão.

Esses não são apenas dados sociológicos. São indicadores de risco para cultura organizacional, retenção de talentos e clima de negociação.

A armadilha do “depois que passar”

Agostinho cita Jó: perdeu tudo, mas recusou o conselho de “amaldiçoar e desistir”. A responsabilidade real aparece depois do suposto fim do mundo. O papa Leão XIV, primeiro pontífice agostiniano da história, costuma repetir a máxima: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”.

Não há “volta à normalidade”. A normalidade é construída diariamente na qualidade das pontes que não queimamos.

O roteiro português para tempos de ruptura

Agostinho da Silva, filósofo luso-brasileiro que viveu na Bahia, formulou a diretriz operacional para momentos assim: buscar em cada pessoa, povo ou crença “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”.

Um país — e uma empresa — não se define pelo que odeia, mas pelo que ama. Ódio é estratégia ruim; não entrega resultado sustentável.

O que observar daqui para frente

Líderes que tratarem a polarização como ruído de fundo perderão a chance de mapear onde estão as convergências ocultas. O próximo ciclo pertence a quem conseguir transformar “inimigos” em “futuros concidadãos” — seja no conselho de administração, na base de fornecedores ou na mesa de jantar. A pergunta prática não é “quem ganhou?”, mas “que pontes vou manter de pé amanhã?”.