Economia

Bolsa argentina afunda 6% após vitória de Lula: contágio brasileiro assusta investidores

Gráfico de queda acentuada do índice Merval argentino com fundo de cédulas de peso
Índice Merval despenca 6,24% em Buenos Aires após vitória de Lula no Brasil.

O índice Merval despencou 6,24% nesta segunda-feira (26), arrastado pelo tombo histórico de 17% no Ibovespa após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O movimento expõe a fragilidade dos ativos argentinos diante de choques no maior parceiro comercial do país.

Às 11h10 (horário de Brasília), o mercado de Buenos Aires já acumulava perdas expressivas, enquanto o peso recuava 0,71% para 1.540,50 por dólar — após tocar mínima intradiária de 1.542 na venda. O risco-país subiu para 738 pontos-base, patamar igual ao de outubro de 2025.

O canal de transmissão do choque

Para Roberto Geretto, analista do Adcap Grupo Financiero, o resultado eleitoral brasileiro funciona como “cisne negro” para a região. A desvalorização do real pressiona a taxa de câmbio real multilateral, tornando o peso argentino menos competitivo e elevando a pressão sobre as reservas.

Os títulos soberanos em mercado de balcão recuaram 0,7% em média. O contágio não se limita às ações: atinge a curva de juros futura e o custo de captação externa, justo quando a Argentina precisa rolar vencimentos pesados nos próximos trimestres.

Por que o impacto é desproporcional

  • Brasil responde por cerca de 15% das exportações argentinas
  • Fluxos de capital entre os dois mercados são altamente correlacionados
  • Investidores estrangeiros tratam a região como bloco único de risco
  • Expectativas de política fiscal brasileira mudaram abruptamente

Gustavo Ber, economista que acompanha mercados emergentes, resume: “Os mercados terão que desfazer as expectativas geradas por uma possível vitória de Bolsonaro e absorver um novo evento improvável, mas de grande impacto”.

O calendário que preocupa

A Argentina tem eleições presidenciais marcadas para 2027, com Javier Milei projetando buscar a reeleição. Até lá, o governo precisa navegar em ambiente externo adverso: eleições em Israel, Estados Unidos e França nos próximos meses podem amplificar a volatilidade.

O cenário-base dos analistas prevê pressão contínua sobre o câmbio paralelo e dificuldade de acesso a financiamento externo a taxas razoáveis. A lição, segundo Ber, é que “toda previsão pode falhar” — e o prêmio de risco argentino deve incorporar essa incerteza estrutural.

O que observar daqui para frente

Monitorar o diferencial entre dólar oficial e blue nos próximos dias dará a medida da pressão real sobre o regime cambial. Se o spread superar 100%, a probabilidade de intervenções mais agressivas ou mudança de regime aumenta. Para o investidor, a regra permanece: posição dimensionada, stop definido e exposição a Argentina apenas com horizonte compatível com a volatilidade esperada.