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O perigo de querer reviver os anos 70: por que o Reino Unido travou na construção do futuro

Retrovisor de carro mostra anos 1970 nítidos e estrada futura nebulosa simbolizando estagnação política UK
A política britânica olha o retrovisor dos anos 70 em vez de pavimentar o futuro.

O eleitorado britânico deu um recado claro: apenas 48,6% pretendem votar nos dois partidos que dominaram o país por décadas. Trabalhistas e conservadores somam menos da metade das intenções de voto, abrindo espaço para discursos que, em vez de olharem para frente, competem por quem melhor romantiza o passado.

Andy Burnham e Kemi Badenoch subiram ao pódio nas conferências partidárias com narrativas opostas, mas igualmente ancoradas em décadas passadas. O que nenhum dos dois explica é como voltar atrás resolve a paralisia que impede o Reino Unido de construir moradias, energia e infraestrutura hoje.

O voto de protesto que esvaziou o centro

As pesquisas mais recentes mostram Burnham com 27,9% e Badenoch com 20,7%. Juntos, não chegam a 49%. O vácuo não é ideológico — é de confiança. Eleitores não veem nos discursos atuais uma resposta para o custo de vida, a fila do NHS ou a impossibilidade de comprar a primeira casa.

Badenoch quebrou o protocolo conservador: não citou Thatcher, evocou Disraeli e rejeitou aliança com o Reform UK de forma direta. “Não quero viver em um país governado por pessoas que debatem se meus filhos mestiços são ingleses”, disse. O momento foi forte, mas a proposta de isentar a residência familiar do imposto sobre herança tende a travar ainda mais um mercado imobiliário que precisa de liquidez.

O diagnóstico de Burnham: certo no sintoma, errado na causa

O prefeito de Greater Manchester tem discurso afiado. Apontou desindustrialização, desregulamentação, privatização, austeridade e Brexit como erros consecutivos. “Moradia. Água. Energia. Transporte. Assistência. Tudo desmembrado e vendido”, enumerou. A plateia aplaudiu.

O problema é a prescrição. O Reino Unido pré-Thatcher, nos anos 70, não era o paraíso perdido que o “Velho Trabalhismo” sugere. A British Leyland, símbolo da indústria automobilística, foi estatizada em 1975 após colapsar. Greves paralisavam carvão, aço, ferrovias e serviços públicos. Em 1975, a inflação no varejo bateu 27% ao ano. Thatcher não criou esse caos — foi eleita por causa dele.

Três mitos que travam o debate britânico

  • Desindustrialização reversível: a perda de empregos fabris foi global; no Reino Unido, acelerou por fragilidades estruturais, não só por política macroeconômica. Na era da IA, vagas em fábrica vão cair mais.
  • País desregulado: o oposto é verdade. Tentar construir uma usina nuclear, um parque eólico, uma ferrovia de alta velocidade ou um condomínio virou pesadelo burocrático. O grupo Britain Remade documenta: o excesso de regulação, novo e velho, é o freio real.
  • Privatização como vilã única: em mercados competitivos, serviços melhoraram drasticamente após a venda. O erro foi privatizar monopólios naturais — como água — sem regulação forte.

O número que expõe a crise habitacional

Entre 1960 e 1980, o Reino Unido ergueu 7 milhões de moradias. De 2005 a 2025, projetam-se menos de 4 milhões. A queda coincide com o fim da construção massiva por autoridades locais e o endurecimento de regras de zoneamento. Londres e o Sudeste sentem o impacto nos preços — e na retenção de talento.

Burnham acerta ao cobrar poder local para construir. Erra ao achar que o Estado sozinho resolve, sem enfrentar o emaranhado regulatório que paralisa até o setor privado.

O que observar daqui para frente

O Orçamento da próxima semana será o primeiro teste real do governo Starmer. Até agora, a estratégia de crescimento parece uma colcha de retalhos: “reindustrialização” sem plano, “devolução de poderes” sem financiamento, nostalgia sem engenharia reversa.

Para investidores e empresários, o sinal é claro: o Reino Unido só destrava quando tratar regulação como variável de competitividade, não como totem ideológico. Voltar aos anos 70 não é opção — mas ficar parado no atual labirinto também não.