O governo federal lança esta semana a terceira grande rodada de renegociação de dívidas em três anos, com potencial para absorver até R$ 90 bilhões em débitos inadimplentes. O volume supera a soma dos dois programas anteriores, mas especialistas alertam: a farra de descontos pode estar criando uma armadilha comportamental perigosa.
A convocação para que bancos vendam suas carteiras podres à Caixa Econômica Federal deve ser publicada nos próximos dias. A operação prevê deságio mínimo de 90% na compra dos títulos, o que permite abatimentos agressivos ao consumidor final. Mas a adesão das instituições privadas ainda é incerta.
Os números que explicam a pressa do governo
O primeiro Desenrola, focado em cartões e contas básicas, renegociou R$ 53,2 bilhões de 14,8 milhões de pessoas entre julho de 2023 e maio de 2024. A versão 2.0, encerrada em agosto, adicionou R$ 28,37 bilhões em valor original de dívidas, com R$ 5,71 bilhões garantidos pelo FGO.
Apesar do esforço, a inadimplência no crédito livre bateu 6,61% em agosto — recorde da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Dados do UBS BB indicam que o total de brasileiros negativados saltou para 84 milhões (51% da população adulta), um aumento de 2,7 milhões desde o fim de 2023.
Como o Desenrola 3.0 vai funcionar na prática
Diferente das edições anteriores, o modelo agora é de compra direta de carteiras. A Caixa adquire os lotes dos credores com desconto mínimo legal de 90%. O consumidor, por sua vez, pode renegociar dívidas de cartão (rotativo e parcelado), crédito pessoal e contas de serviços/lojas com atraso entre dois e quatro anos e meio.
Não há, porém, percentual de desconto fixo por contrato na Medida Provisória. O abatimento real dependerá da negociação entre o devedor e o agente operador. Grandes bancos como Nubank e Bradesco — líderes no volume renegociado na versão 2.0 — ainda avaliam se vendem seus ativos nessas condições.
O mercado por trás da operação: R$ 600 bi fora do radar
A consultoria Deloitte estima que o mercado secundário de carteiras com mais de 90 dias de atraso gira atualmente entre R$ 50 e R$ 55 bilhões por ano. Mas existe um estoque “invisível” de aproximadamente R$ 600 bilhões fora do balanço dos bancos.
- Até 2018: Mercado movia R$ 20 a 25 bi/ano.
- 2019 a 2022: Saltou para faixa de R$ 30 a 35 bi/ano.
- Período atual: Estabilizado em R$ 50 a 55 bi/ano.
“O programa é arrojado, mas viável. Há volume a ser ofertado”, resume Ricardo Marin, sócio da Deloitte. A viabilidade, contudo, esbarra na falta de apetite dos bancos privados pelo deságio profundo.
O efeito colateral que preocupa o UBS BB
Analistas do banco suíço veem impacto positivo nos balanços das instituições financeiras — o Nubank, por exemplo, reduziu seu custo de crédito em 5% (US$ 85 milhões) com a rodada passada. O risco, no entanto, é o risco moral: a sucessão de programas ensina o consumidor a adiar pagamentos na expectativa de novo socorro oficial.
Mas o efeito mais relevante aparece na raiz do problema. O alívio de caixa imediato não ataca os juros reais elevados, mantidos pelo risco fiscal, nem a falta de planejamento orçamentário das famílias.
A contraproposta política e o choque de realidade
No debate eleitoral recente, Flávio Bolsonaro (PL) apresentou alternativa: compra das dívidas pela Caixa com carência de 6 meses (PF) e 1 ano (PJ), juros menores e crédito novo para investimento. O Ministério da Fazenda classificou a ideia como “impossível de implementar” e prejudicial ao acesso a crédito para bens duráveis e imóveis.
Para Ana Rosa Vilches (DSOP), a carência prolongada cria “falsa sensação de liberdade”, fazendo o endividado manter o consumo disfuncional. Carlos Castro (CFP/Planejar) reforça: ambas as propostas são paliativos de curto prazo sem enfrentar causas estruturais.
Por que especialistas dizem que ‘alívio não é cura’
Lauro Gonzalez (FGV Cemif) define o modelo como “política de alívio financeiro, não de combate às causas do superendividamento”. Katherine Hennings (FGV Ibre/BRCG) lembra que o primeiro Desenrola reduziu inadimplência de baixa renda temporariamente, mas o problema voltou.
A planejadora Carol Stange aponta a falha na timing da educação financeira: ela deve ocorrer antes da assinatura, mostrando o custo total da dívida e o peso da parcela na renda. “Muita gente fecha o acordo olhando só a parcela e descobre depois que ela também não cabe no orçamento”, alerta.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o sucesso real da medida: a adesão efetiva dos grandes bancos na venda de carteiras, a velocidade de execução da Caixa na operacionalização dos descontos e, principalmente, a taxa de reincidência dos beneficiados nos próximos 12 meses. Se o histórico se repetir, o próximo “Desenrola” já está contratando.
