Economia

Como uma aula de Natal transformou uma ideia em escola de 1.000 alunos

Ana Maria Diniz ensinando walk dance na aula de Natal que originou escola com 1000 alunos
A aula de walk dance de Natal em 2009 que deu origem a uma escola com quase mil alunos.

A empresária Ana Maria Diniz transformou uma brincadeira de fim de ano em um negócio que hoje atende quase mil alunos com mais de 80 professores. Tudo começou com uma única aula de walk dance em dezembro de 2009. O que ninguém imagina é como decisões contraintuitivas nos primeiros meses definiram o rumo da operação.

Diniz reunia amigas anualmente para um encontro de Natal. Em 2009, uma convidada sugeriu chamar Helo Gouvea, professora de dança do passado do grupo, para ministrar uma aula experimental. A técnica — criada para ser acessível a qualquer pessoa, com ou sem experiência — funcionou. Na saída, a empresária fez a pergunta que mudou tudo: por que não alugar um salão e repetir isso toda semana?

Da sala alugada ao primeiro endereço próprio

A ideia evoluiu rápido. Em vez de apenas dividir custos entre amigas, Diniz convidou Helo para ser sócia. Juntas, mapearam professores, definiram o conceito e abriram as portas do Estúdio Anacã em julho de 2010, na Avenida Brasil, no Jardim Paulista, São Paulo. O nome vem do tupi-guarani e significa “dança” — também batiza uma espécie de pássaro.

Quinze anos depois, a escola ocupa dois imóveis na mesma região. Mas a estrutura societária chama mais atenção que a metragem.

Um comitê executivo e a “alma” do negócio no dia a dia

Diniz não gerencia a operação. Ela integra um comitê executivo que se reúne semanalmente, ao lado de uma gestora profissional e cabeças de vendas, marketing e RH. Helo Gouvea também faz parte desse colegiado — com uma diferença crucial: ela está no estúdio todos os dias, acompanha a rotina e ainda leciona as aulas mais concorridas.

Diniz resume a dinâmica com clareza: a sócia fundadora é a presença constante; a investidora, a governança periódica. Esse arranjo permite que a expertise artística caminhe lado a lado com a gestão corporativa sem atritos de ego.

A aposta arriscada que construiu reputação

No lançamento, a dupla adotou duas táticas que aumentavam o custo fixo, mas serviam a um posicionamento claro:

  • Semana de portas abertas: aulas gratuitas para atrair o público inicial;
  • Contratação de “ícones” do mercado: professores com cacheês acima da média, escolhidos a dedo para conferir credibilidade imediata.

A lógica era simples: em um modelo novo — estúdio multimodalidade focado no adulto não profissional —, a confiança do aluno precisava ser comprada com nomes reconhecidos. O investimento antecipado em talento docente virou ativo de marca.

Números atuais e expansão de portfólio

Hoje o Anacã oferece mais de 20 modalidades — sapateado, tango, jazz, balé clássico, ballet fitness e o walk dance original. Jazz e walk dance lideram a procura. A base de alunos beira os 1.000 matriculados, suportada por um corpo docente de mais de 80 profissionais.

A operação também avançou para formatos híbridos: projetos que misturam teatro com dança e teatro com canto, aproximando as vertentes Anacã Dança e Anacã Música. A diversificação reduz sazonalidade e aumenta o lifetime value do aluno.

O que observar daqui para frente

O modelo de governança bicameral — comitê estratégico semanal mais gestão operacional diária — tende a ser testado em eventuais expansões geográficas ou franquias. Outro ponto de atenção: a dependência de professores “ícones” cria risco de concentração; a capacidade de formar novos talentos internamente ditará a escalabilidade nos próximos ciclos. Para o empreendedor que acompanha o caso, a lição prática está na disposição de subsidiar a aquisição de cliente no início com ativos de reputação, não apenas com desconto de preço.