Meio Ambiente

ONU admite: 1,5°C já era — e o mundo caminha para 2,8°C

Gráfico mostra aquecimento global projetado para 2,8°C com metas climáticas insuficientes
Relatório da ONU confirma que limite de 1,5°C será ultrapassado e mundo caminha para 2,8°C de aquecimento.

O limite de 1,5°C será ultrapassado — isso já não é mais projeção, é certeza. O novo relatório do Pnuma confirma que décadas de ação insuficiente tornaram inevitável o estouro da meta mais ambiciosa do Acordo de Paris. A pergunta agora não é se, mas quanto tempo ficaremos acima desse patamar.

Mesmo com o cumprimento integral de todas as promessas climáticas atuais, a temperatura média global deve subir 2,6°C até 2100. Se mantidas apenas as políticas já em vigor, o aquecimento chega a 2,8°C — e continua escalando depois disso.

O abismo entre promessa e realidade

A 17ª edição do Emissions Gap Report expõe a distância brutal entre o que os países assinam e o que precisam entregar. Para ter 50% de chance de voltar a 1,5°C até 2100 — após pico de 1,7°C a 1,8°C por volta de 2050 —, o mundo precisaria cortar emissões em:

  • 18% até 2030
  • 45% até 2035
  • 69% até 2040

(Todos os percentuais partem dos níveis de 2025.)

O cumprimento das promessas atuais, em contraste, renderia redução de apenas 5% a 8% até 2030 e 11% a 15% até 2035. A diferença não é marginal — é estrutural.

O custo de cada ano de atraso

Segundo os pesquisadores, cada cinco anos de emissões mantidas no patamar atual acrescentam aproximadamente 0,1°C ao pico de aquecimento previsto. Em 2025, o mundo emitiu cerca de 58,4 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente — praticamente o mesmo volume de 2024. A estagnação está dentro da margem de erro: não dá para afirmar que as emissões começaram a cair.

Enquanto a queima de petróleo, carvão e gás segue em alta, houve redução nas emissões por desmatamento e queimadas. Não compensa.

Quem entrega — e quem não entrega

Dos 124 países que apresentaram novas metas até setembro de 2026 (cobrindo 76% das emissões globais), apenas seis integrantes do G20 estão no caminho provável para cumprir seus compromissos de 2030 com as políticas atuais: China, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia. O Brasil não está na lista.

A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e revisões nos cálculos de emissões históricas tornaram as projeções atuais menos favoráveis que as do ano passado.

O que significa viver acima de 1,5°C

Cada fração de grau e cada ano adicional acima do limite amplificam riscos irreversíveis: perda de massas de gelo, colapso de recifes de coral, ondas de calor letais, secas prolongadas, enchentes extremas. A OMS estima que ondas de calor mataram mais de 200 mil pessoas na Europa em apenas quatro anos.

Para reverter a trajetória, além dos cortes drásticos, seria necessário remover da atmosfera cerca de 320 bilhões de toneladas de CO₂ ao longo do século — o equivalente a oito anos das emissões globais de 2024. Florestas e tecnologias de captura teriam que operar em escala sem precedentes, enfrentando barreiras tecnológicas e econômicas ainda não resolvidas.

Sinais de que a virada é possível — se escalar

Não é tudo retrocesso. Desde 2015, a capacidade global de geração renovável cresceu três vezes mais rápido que o previsto; a solar, sete vezes. Análise de mais de 220 políticas climáticas mostrou redução média de 9% nas emissões do setor elétrico nos períodos avaliados.

O relatório defende: acelerar a substituição de fósseis, expandir renováveis, cortar metano e frear o desmatamento. Sem isso, a janela para limitar o pico a 1,7°C ou 1,8°C pode fechar nos próximos anos.

O que observar daqui para frente

As próximas rodadas de metas nacionais (NDCs), previstas para 2025, serão o teste real de credibilidade. Acompanhe: quais países apresentarão cortes alinhados a 45% até 2035? Quais mecanismos de precificação de carbono ganharão tração? E, sobretudo, se as emissões globais finalmente iniciarão curva descendente sustentada — ou se 2026 repetirá a estagnação de 2025. Cada ano conta. Literalmente.