Economia

O governador que quebrou o estado com um celular na mão

Governador segurando celular diante de rodovia esburacada e obras paralisadas
Imagem simboliza gestão baseada em confronto digital enquanto infraestrutura colapsa

Um governador eleito sem um único projeto de infraestrutura. Apenas um celular e a habilidade de transformar buracos em palanque. O resultado: rodovias paralisadas, leilões desertos e uma dívida que ameaça travar a folha de pagamento.

Não é ficção. É o retrato de um modelo que se repete em diferentes estados, onde o confronto substitui a gestão e a infraestrutura paga a conta.

O atalho que dispensa propostas

Dois mandatos de deputado. Zero leis aprovadas. O currículo legislativo se resume a vídeos de um minuto gravados diante de falhas do poder público: buracos, enchentes, praças de pedágio. A exposição nas redes sociais dispensou a necessidade de apresentar soluções.

O plano de governo entregue à Justiça Eleitoral era vazio. Nem cemitério prometeu — referência ao prefeito fictício Odorico Paraguaçu, que ao menos oferecia algo concreto. A descoberta foi simples: a visibilidade, ainda que fútil, rende mais votos do que qualquer projeto de saneamento ou duplicação de rodovia.

O primeiro decreto: quebrar contratos

Na primeira semana de mandato, a caneta determinou a suspensão da cobrança de pedágio na principal rodovia concedida do estado. O precedente é conhecido: governadores anteriores tentaram o mesmo por decreto. O Judiciário restabeleceu as tarifas. Um prefeito mandou derrubar cabines com retroescavadeiras — a cidade arcou com a indenização. Outro estado deixou concessões vencerem sem substituição; em poucos anos, as estradas voltaram ao estado precário anterior.

Os técnicos da agência reguladora explicaram: o contrato prevê reequilíbrio econômico-financeiro e indenização. A duplicação em andamento paralisaria. A tarifa seguinte subiria para cobrir o rombo. O próximo investidor embutiria no preço o risco de ter o governador do outro lado da mesa.

A resposta foi um vídeo diante das cancelas levantadas.

A cadeia de consequências nos números

  • Leilão de saneamento marcado para o ano seguinte: zero propostas.
  • Concessões novas: nenhuma saiu do papel.
  • Obras e expansão de redes: paralisadas.
  • Dívida estadual: anúncio de suspensão dos pagamentos.
  • Precatórios: tentativa de congelamento.
  • Quem contrata com o Estado passou a cobrar prêmio de risco. Quem precisa investir antes de receber — a lógica de qualquer concessão — simplesmente não comparece aos leilões.

    O experimento que já deu errado

    A medida provisória de 2012 que reduziu a conta de luz por decreto serve de alerta. Três anos depois, a conta voltou com juros. O contribuinte pagou a diferença. O mesmo roteiro se desenha agora: tarifas de energia e transporte urbano congeladas por determinação do governador, amparado em parecer da procuradoria estadual que sobrepõe a vontade do Executivo à independência da agência reguladora.

    O presidente da agência, raro caso de independência técnica entre as mais de 90 existentes no país, aprovou o reajuste anual previsto em contrato. O governador ignorou.

    O método por trás da aparência

    Críticos apontam detalhes comportamentais: talheres mal segurados, camisas sujas. Erram o alvo. O que parece desleixo é cálculo. A camisa suja rende mais engajamento do que o terno. O preconceito de classe desvia a atenção do que importa: a gestão orçamentária.

    Enquanto os vídeos continuam no ar, a rodovia segue em pista simples. A rede de água não chega ao bairro. O investidor foi para outro estado. O “sistema” que ele jura enfrentar permanece intacto. Quem não resistiu foi a infraestrutura — e, no fim, a população que depende dela.

    O que observar daqui para frente

    Três sinais indicam se o cenário se agrava ou se há correção de rota: (1) posição do Judiciário sobre a suspensão unilateral de contratos de concessão; (2) capacidade do estado de rolar a dívida nos próximos vencimentos sem prêmios de risco proibitivos; (3) edição de novas medidas que transfiram o custo do congelamento tarifário para o Tesouro. Empresas e investidores já precificam o risco. O teste real virá no próximo leilão — se houver interessados.