O Brasil senta sobre a segunda maior reserva mundial de terras raras e domina 98% do nióbio global, mas exporta matéria-prima bruta e importa tecnologia pronta. Dois candidatos à presidência prometem virar esse jogo em 2026, mas os especialistas veem buracos perigosos nos dois planos.
O que está em jogo não é apenas receita de exportação. É a capacidade de fabricar ímãs para turbinas eólicas, baterias para carros elétricos e componentes de defesa sem depender de quem controla o refino hoje.
Por que o mundo olha para o subsolo brasileiro
Terras raras não são raras — o cério supera o cobre em abundância. O problema é separar os 17 elementos misturados em baixas concentrações. A China domina 90% desse refino e 48% das reservas conhecidas. O Brasil tem 22% do total, mas só uma mina comercial ativa: a Serra Verde, em Goiás, vendida em setembro por US$ 2,8 bilhões para a americana USA Rare Earth.
O nióbio conta outra história. O Brasil é produtor quase único, essencial para ligas de aço em aviões, foguetes e pontes. Mesmo assim, a verticalização — transformar minério em produto final — continua no papel.
Onde Lula e Flávio Bolsonaro concordam
Ambos defendem cadeia produtiva vertical: extrair, separar, refinar e fabricar no país. Querem acabar com o ciclo de vender barato e comprar caro. A semelhança para aí.
- Lula propõe “política específica para minerais críticos”, mapeamento geológico e alinhamento entre comércio exterior, indústria e inovação. Cita Amazônia e Nordeste como polos. Único a mencionar urânio e ciclo nuclear.
- Flávio Bolsonaro define seis eixos: marco regulatório estável, licenciamento ágil, atração de capital e tecnologia, verticalização via incentivos de mercado, governança e transparência. Estado como regulador, não empresário.
O que os especialistas viram — e o que assusta
Três analistas avaliaram as propostas às cegas, sem saber a autoria. O consenso: os dois planos são genéricos, mas de formas diferentes.
Nilson Botelho (UnB) classifica ambos como vagos. No caso de Lula, faltam ações concretas e o papel do Estado no nuclear. No de Flávio, a abertura irrestrita a capital estrangeiro sem alinhamento geopolítico é “ingênua”.
Giorgio Schutte (UFABC) elogia a menção de Lula à energia nuclear, mas cobra posição sobre Angra 3 — parada desde os anos 80. Sobre Flávio, critica a ausência total de variável ambiental e a falácia de que investidores alinham interesses sozinhos.
Edna Silva (UnB) destaca que Lula define orientação industrial clara, mas omite financiamento, propriedade e controle. No plano de Flávio, vê risco real em acelerar licenciamento sem salvaguardas ambientais.
O abismo entre promessa e realidade
Separar terras raras exige tecnologia que o Brasil não domina em escala. Os EUA tentam há anos e ainda dependem da China. Qualquer plano que ignore essa barreira tecnológica — e o capital paciente que ela exige — nasce frágil.
Outro ponto cego: infraestrutura energética e logística nas regiões onde jazidas existem. Amazônia e Nordeste aparecem nos discursos, mas estradas, energia barata e mão de obra qualificada não brotam de decreto.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se a retórica vira política:
- Criação de empresa estatal ou fundo soberano com mandato claro de verticalização — ou dependência exclusiva de capital privado.
- Programa de P&D em separação de terras raras com metas, prazos e orçamento vinculado, não apenas linhas de crédito genéricas.
- Posicionamento sobre Angra 3 e ciclo do urânio: conclusão, descomissionamento ou parceria internacional com transferência de tecnologia.
O minério está no chão. A tecnologia, o capital e a vontade política é que definem quem lucra. O próximo governo terá quatro anos para provar que o Brasil aprendeu a jogar esse xadrez — ou continuará vendendo o tabuleiro.
