Justiça

Centrão corre para mudar regras do jogo antes da posse: o que está em jogo?

Plenário da Câmara dos Deputados com parlamentares em sessão, simbolizando articulação do Centrão
Centrão acelera votação de reforma política antes da posse dos novos deputados eleitos pelo PL.

Dez partidos do centrão fecharam acordo para votar uma reforma política na primeira semana de novembro, atropelando a posse dos novos deputados. O movimento é uma resposta direta ao avanço do PL, que elegeu a maior bancada desde 1990 com 121 cadeiras.

A pressa tem nome e sobrenome: Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Juntos, os dois puxadores de votos do PL arrastaram 20 colegas para a Câmara apenas com seus próprios sufrágios, esvaziando a base de sustentação dos partidos de centro.

O xeque-mate nas urnas

No modelo proporcional atual, os votos de todos os candidatos de um partido somam-se para definir o número de cadeiras. Quem vota muito “puxa” os menos votados da mesma legenda. Nikolas e Pavanato ultrapassaram a marca de três milhões de votos cada, garantindo 13 e 7 vagas extras para o PL em Minas e São Paulo, respectivamente.

O efeito cascata reduziu a federação União Brasil-PP de 97 para 87 deputados. No total, o bloco de centro perdeu mais de 20 cadeiras e verá sua força cair de 271 para 252 votos — abaixo da maioria absoluta de 257 na próxima legislatura.

Duas rotas, um mesmo obstáculo

O consenso para mudar existe; o modelo, não. Uma reunião decisiva está marcada para o dia 28 para definir entre duas opções principais:

  • Distritão: Eleitos os mais votados, ignorando o desempenho partidário. Exige PEC (308 votos) e já foi rejeitado em 2015.
  • Distrital Misto: Metade das vagas por lista partidária, metade por distritos regionais. Viável via projeto de lei, com texto já em negociação por Domingos Neto (PSD-CE).

O distritão enfrenta resistência do PT e de deputados com votação baixa que dependem do “puxadinho”. Já o distrital misto desperta receio de que governadores ganhem peso excessivo nas disputas distritais, criando currais eleitorais.

A articulação nos bastidores

A estratégia foi selada na residência oficial de Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara. Líderes de PSD, Republicanos, MDB, Podemos, União Brasil-PP, PSDB-Cidadania e PRD-Solidariedade assinaram nota conjunta apoiando a reeleição de Motta e a atuação unificada.

Motta admitiu que o centro precisa aprender a sobreviver na “selva política” após a onda de direita. A percepção é de que a moeda de troca tradicional — cargos e emendas — não segurou o eleitorado.

O que observar daqui para frente

Se a votação ocorrer em novembro, a nova regra valeria já para 2026, mas precisa de sanção presidencial e aprovação no Senado até um ano antes do pleito. O centrão tenta atrair siglas de centro-esquerda para fechar os números. Para o empresariado e investidores, o sinal é claro: a instabilidade nas regras eleitorais deve persistir, impactando a previsibilidade de alianças e a governabilidade nos próximos ciclos.