Documentos internos de Bruxelas revelam uma corrida silenciosa: a União Europeia quer transformar o Vietnã em seu novo pilar de suprimento de minerais críticos. A meta é clara — reduzir a dependência da China —, mas o caminho esconde armadilhas que podem travar o plano antes mesmo de começar.
O relatório que mudou o jogo em Bruxelas
Um relatório da delegação da UE, datado de junho de 2026 e obtido pela Reuters, coloca o Vietnã no centro da estratégia europeia de “desrisco”. O texto é direto: considerando a necessidade de rearmamento e redução de riscos, o bloco “não pode se dar ao luxo de ignorar” as reservas vietnamitas de terras raras e tungstênio.
Hoje, o fluxo comercial se limita basicamente a tungstênio e antimônio, vitais para defesa e munições. O documento recomenda apoio financeiro direto à mineração e ao processamento local para “manter e ampliar o acesso” a tungstênio, bismuto, antimônio e titânio.
Por que a pressa agora? O fator China
A urgência tem endereço certo: Pequim. Restrições às exportações chinesas impostas no ano passado abalaram as cadeias de abastecimento europeias. Adicionar o Vietnã como alternativa viável deixou de ser opção geopolítica para virar necessidade industrial imediata.
Não por acaso, a visita do líder vietnamita To Lam a Bruxelas — prevista para 22 de outubro — tem os minerais críticos como “destaque absoluto” nas negociações, segundo autoridades de ambos os lados. O Vietnã ainda não figura na lista dos 16 parceiros estratégicos da UE no setor.
O que o Vietnã tem a oferecer (e o que falta)
O subsolo vietnamita guarda ativos cobiçados:
- Tungstênio: maior operação do país (Masan High-Tech Materials) já abastece a Alemanha, mas exportações caíram em 2025 por entraves burocráticos e alta de preços.
- Terras raras: projeto da australiana Lynas com a sul-coreana LS Eco Energy prevê processamento local — iniciativa que o relatório da UE classifica como risco de “deixar a Europa para trás”.
- Gálio, bismuto, titânio: subprodutos da bauxita e minerais independentes essenciais para semicondutores e ligas aeroespaciais.
A disputa invisível pelos ativos vietnamitas
Mas o efeito mais relevante aparece na disputa societária. No ano passado, um consórcio Austrália-EUA-Canadá (liderado pela EQ Resources) tentou comprar a operação de tungstênio da Masan. O plano falhou, mas o documento da UE admite que a movimentação “não estava isenta de riscos para o atual abastecimento”.
Recentemente, a Masan vendeu 4,99% ao Elmet Group — fornecedor do estoque estratégico de defesa dos EUA — e negocia mais 5% com um investidor “não europeu” não identificado. Cada fatia vendida fora do eixo europeu reduz a margem de manobra de Bruxelas.
O pacote de incentivos sobre a mesa
Para contrabalancear a concorrência, a Comissão Europeia estuda instrumentos concretos:
- Empréstimos e subsídios diretos a projetos de processamento (visto como menos sensível que mineração).
- Assistência técnica para mapeamento geológico de precisão.
- Seguro de crédito à exportação para mitigar riscos políticos.
Paralelamente, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA — Suíça, Noruega, Islândia, Liechtenstein) assina neste domingo (18) um acordo de livre comércio com Hanói, negociado desde 2012. O tratado cobre investimentos, propriedade intelectual e compras governamentais, pavimentando o terreno regulatório.
Os obstáculos que o relatório não esconde
O próprio documento da UE lista três barreiras estruturais:
- Opacidade chinesa: dificuldade em rastrear o envolvimento de capital de Pequim em projetos locais.
- Nacionalismo econômico: exigências vietnamitas de transferência de tecnologia como condição para investimento.
- Entraves regulatórios: burocracia que já derrubou exportações de tungstênio no ano passado.
Hanói, por sua vez, pressiona pela ratificação do acordo de proteção de investimentos de 2019 (bloqueado pela França) e pela remoção do “cartão amarelo” da UE sobre pesca ilegal — sinais de que a barganha é de duas vias.
O que observar daqui para frente
A inclusão do Vietnã na lista de parceiros estratégicos de matérias-primas da UE é o termômetro definitivo. Se ocorrer, abre as portas para o clube de matérias-primas críticas e para financiamento do Banco Europeu de Investimento. Antes disso, dois marcos práticos: a ratificação do acordo de investimentos travado em Paris e a eficácia real do novo acordo EFTA-Vietnã em desbloquear fluxos de capital para refino, não apenas extração. Quem chegar primeiro ao processamento, leva a cadeia de valor.
