Economia

O choque de setembro: exportações de carne desabam 15% e redesenham o mapa de compradores

Gráfico de queda nas exportações brasileiras de carne para China e União Europeia em setembro
Exportações de carne caem 15% em setembro com barreiras da China e UE

As barreiras impostas por China e União Europeia derrubaram a receita das três principais carnes brasileiras em 15% no nono mês do ano, na comparação anual. O volume embarcado também recuou 12%, sinalizando uma mudança brusca de rota após meses de aceleração. O que parecia uma desaceleração pontual revela, na verdade, uma reorganização forçada de mercados.

Apesar do tombo mensal, o acumulado de janeiro a setembro ainda mostra fôlego: US$ 25,6 bilhões em receita, alta de 15% sobre 2024, e 8 milhões de toneladas embarcadas. Mas a dinâmica mudou. O ritmo forte do primeiro semestre foi turbinado por compras antecipadas — estratégia de importadores para fugir de taxas e embargos que entrariam em vigor depois.

O gatilho chinês e o freio europeu

No caso da China, o motor foi a cota de 1,1 milhão de toneladas para carne bovina isenta de taxa extra. Uma vez preenchida, a alíquota de 55% entrou em cena e travou o fluxo. Do lado europeu, as restrições sanitárias passaram a valer a partir de 2 de setembro, fechando as portas para parte da produção nacional.

O resultado imediato apareceu nos números da bovina. A receita de setembro despencou para US$ 1,38 bilhão, 28% abaixo do mesmo mês do ano anterior. No trimestre julho-setembro, a queda financeira chega a 25%. O volume vendido aos chineses caiu 93% na comparação anual, fazendo o gigante asiático despencar para a sexta posição no ranking de compradores.

EUA assumem a liderança e Rússia reduz passo

Enquanto China e UE compravam 9,4 mil toneladas a menos, os Estados Unidos ampliaram as aquisições em 13,1 mil toneladas, totalizando 48,3 mil no mês e assumindo a ponta da tabela. A Rússia, por sua vez, cortou 41% das compras, ampliando o vazio deixado pelos tradicionais parceiros.

Pela primeira vez no ano, o volume acumulado de carne bovina exportada registra queda: 2,43 milhões de toneladas, recuo de 0,5% sobre 2024. A salvação da lavoura, por ora, é o preço internacional mais alto, que sustenta a receita acumulada em US$ 14,2 bilhões (alta de 14%).

Frango e suína: resistência com ressalvas

A ave manteve tração, com 500 mil toneladas em setembro. A UE ainda importou 43 mil toneladas referentes a embarques liberados antes do embargo, segundo a associação do setor (ABPA). Já a suína recuou para 134 mil toneladas, puxada por queda de 26% nas vendas à Ásia — Filipinas, China e Vietnã compraram menos. Japão, Coreia do Sul e Malásia, contudo, aumentaram os pedidos.

  • Bovina: US$ 14,2 bi acumulados (+14% receita), mas volume cai 0,5%.
  • Frango: US$ 8,7 bi acumulados (+21% receita).
  • Suína: US$ 2,7 bi acumulados (+1% receita).

O que observar daqui para frente

O cenário aponta para uma nova geografia comercial. A dependência da cota chinesa e das certificações europeias expôs a fragilidade de concentrar volume em poucos destinos. A abertura do mercado americano e a diversificação na Ásia (Japão, Coreia, Malásia) funcionaram como amortecedores em setembro.

Para o empresário do setor, o sinal é claro: a previsibilidade de curto prazo depende da gestão de cotas e da velocidade de habilitação de novas plantas no exterior. O fechamento do ano deve manter receitas recordes, mas o volume total de 2025 tende a fechar no zero a zero ou ligeiramente negativo na bovina — algo inédito na série recente. Acompanhar a renovação de cotas na China e a evolução das negociações sanitárias com a UE será decisivo para o primeiro trimestre de 2026.