A temporada de balanços que começa na próxima semana deve registrar o terceiro trimestre consecutivo de expansão superior a 25% nos lucros do S&P 500 — um feito inédito fora de recuperações pós-crise. O motor dessa performance é um só: o ciclo massivo de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial.
Mas há um detalhe que poucos estão olhando: a concentração desse ganho nas mãos de poucas gigantes nunca foi tão extrema. O que acontece se o fluxo de caixa secar?
O melhor crescimento de margens “de nossas vidas”
Segundo projeções do Goldman Sachs, o lucro agregado do índice deve subir 27% no terceiro trimestre ante igual período de 2023, enquanto a receita avança 12%. Para Manish Kabra, estrategista-chefe do Société Générale, a sequência de três trimestres acima de 25% não tem paralelo histórico recente.
Steve Chiavarone, CIO de ações da Federated Hermes, resume o momento: investidores testemunham o melhor crescimento de lucros e margens de suas carreiras. “As pessoas criam preocupações que são esmagadas pelos resultados”, afirmou.
Não por acaso, o S&P 500 renovou máximas históricas esta semana, ignorando a alta dos juros longos nos EUA — que atingiram picos de duas décadas — e o estresse nos setores sensíveis a taxas, como imobiliário e financeiro.
Onde o dinheiro realmente está
A amplitude do rally assusta. A participação de mercado encolheu ao menor nível desde a bolha pontocom dos anos 2000. Os dados da FactSet mostram que 72 empresas do S&P 500 emitiram guidances positivos — recorde histórico —, enquanto alertas negativos caíram ao piso de cinco anos.
Porém, a fatia do bolo é desigual. Veja a concentração estimada pelo Goldman Sachs para este trimestre:
- Micron e Nvidia sozinhas respondem por mais de 1/3 de toda a expansão de lucros do índice.
- Hyperscalers (Meta, Alphabet, Broadcom, etc.) elevaram capex anualizado em 116% no 3T24, acelerando frente aos 87% do trimestre anterior.
- Setor de energia surfa no petróleo a US$ 30% mais caro (WTI), com lucros projetados a +114% (Marathon Petroleum e Valero na liderança).
O restante dos 11 setores do índice cresce, mas em ritmo muito inferior. O ganho amplo mascara uma dependência perigosa.
O ciclo virtuoso que vira risco sistêmico
Grandes techs são, simultaneamente, clientes e investidoras umas das outras. A Nvidia vende chips para a Microsoft e o Google, que alugam capacidade para startups de IA, que compram mais chips. Esse loop retroalimenta balanços e cotações — enquanto dura.
Tiffany Wilding, economista da Pimco, alerta: qualquer sinal de desaceleração no capex das hyperscalers vira problema macroeconômico. “A resiliência da economia dependeria então dos ganhos de produtividade da IA chegarem rápido o suficiente para substituir os gastos que perdem força”, escreveu em nota recente.
Ben Snider, do Goldman, discorda do pessimismo: nem dados macro nem sinais de investimento em IA apontam freada no curto prazo. A aposta continua no “gasto pesado agora, lucro depois”.
O que observar daqui para frente
O fechamento deste trimestre será menos sobre “bater estimativas” e mais sobre o guidance de capex para 2025. Se Meta, Alphabet e Microsoft sinalizarem manutenção ou aceleração dos gastos, o rally tem combustível. Se indicarem moderação — mesmo que lucros venham fortes —, a narrativa de “crescimento infinito” racha.
Fique atento também à amplitude: se small caps e setores cíclicos (financeiro, industrial) não começarem a participar da alta nos próximos dois trimestres, a concentração recorde vira fragilidade estrutural. O mercado subiu no colo de sete nomes; a correção, quando vier, não fará distinção.
