A Anglo American colocou os reguladores europeus contra a parede: se a Comissão Europeia bloquear a venda de sua unidade de níquel no Brasil para a MMG, a mineradora encerrará as operações no país. O ultimato será apresentado nesta quinta-feira (8) em audiência a portas fechadas em Bruxelas, segundo rascunho da declaração obtido pela imprensa internacional.
O negócio, avaliado em US$ 500 milhões, envolve ativos em Barro Alto e Niquelândia, em Goiás. A posição da companhia é clara: a MMG é o único comprador viável após mais de dois anos de tentativas de saída do segmento de níquel.
O que está em jogo na audiência de Bruxelas
Ruben Fernandes, diretor de operações da Anglo no Brasil, e Cristina Morgan, diretora financeira, tentarão convencer os técnicos da UE de que a venda não ameaça o abastecimento europeu de aço inoxidável. A Comissão alertou no mês passado que a MMG — controlada por capital chinês — poderia redirecionar a produção para a Ásia, prejudicando siderúrgicas do bloco.
O receio europeu reflete uma estratégia mais ampla: reduzir a dependência de minerais críticos controlados por Pequim. O níquel é insumo essencial para baterias e ligas de alta performance.
O argumento da “única alternativa real”
No documento preparado para a sessão, Fernandes adianta o cenário caso a venda seja vetada:
- Entrada em regime de “manutenção e conservação” — etapa prévia ao fechamento definitivo
- Demissões em massa nas duas unidades goianas
- Perda de receita tributária para Goiás e União
- Redução da oferta global de níquel de alta qualidade
“A prolongada análise regulatória já causou considerável incerteza localmente, mas as consequências de a Comissão Europeia proibir a venda seriam muito mais graves”, dirá o executivo.
Credenciais da compradora no centro da defesa
Cristina Morgan focará no perfil da MMG. A empresa é membro do ICMM (Conselho Internacional de Mineração e Metais), mesmo órgão setorial da Anglo, e possui histórico de operação responsável. O processo de seleção avaliou capacidade financeira, intenções em relação aos funcionários e viabilidade de desenvolvimento de projetos futuros.
Troy Hey, gerente-executivo de relações corporativas da MMG, também participará da audiência para reforçar o compromisso de manter o fornecimento ao mercado europeu.
Um impasse com data para resolver
A Comissão Europeia não divulgou prazo final para a decisão, mas fontes do setor indicam que o parecer deve sair ainda no primeiro semestre. Enquanto isso, as operações em Goiás seguem normalmente — mas o relógio corre.
Se a venda for aprovada, a MMG assume ativos com capacidade instalada de cerca de 35 mil toneladas anuais de níquel contido. Se for barrada, o plano de desmobilização começa imediatamente.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais indicarão o desfecho: manifestações públicas de siderúrgicas europeias sobre segurança de suprimento, eventuais concessões da MMG para garantir entregas ao bloco e a posição do governo brasileiro, que até agora manteve silêncio público. Para investidores e fornecedores da cadeia goiana, a recomendação prática é monitorar o diário oficial da UE — a publicação da decisão final será o gatilho para movimentos de mercado imediatos.
