Cinco políticos que hoje comandam o país ou lideram bancadas recordes passaram os verões anteriores à vitória em atividades que passam longe dos holofotes. O padrão se repete: bastidores, articulação e construção de redes enquanto a atenção pública mira outros palcos.
O dado central salta aos olhos: em 2016, dois anos antes de Jair Bolsonaro vencer a Presidência, ele cumpria agenda discreta no Rio. Em 2022, o PL elegeu a maior bancada da Câmara com 99 deputados — marca histórica para uma sigla única. O fio condutor entre esses momentos não está nos discursos, mas no que ocorreu quando as câmeras desligaram.
O verão de 2016: base silenciosa no Rio
Antes da escalada nacional, o então deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) manteve rotina de votações temáticas e visitas a quartéis. Não houve carreatas nem comícios. O foco era consolidar apoio entre militares da reserva e associações de policiais — grupo que, em 2018, entregou 68% dos votos válidos no primeiro turno no estado.
Paralelamente, Flávio Bolsonaro (à época no PP) articulava a candidatura ao Senado. Venceu com 4,3 milhões de votos, puxando a chapa que elegeria o pai. O movimento não nasceu no palanque: nasceu em reuniões de condomínio, grupos de WhatsApp de segurança pública e almoços com comandantes de batalhão.
2018: o verão da estrutura partidária
O PL, então Partido da República, contava com 34 deputados federais. Valdemar Costa Neto, presidente da legenda, usou o recesso para costurar federações estaduais e atrair pré-candidatos com tempo de TV. A estratégia: garantir chapas proporcionais competitivas em todos os 27 estados.
Resultado direto: em 2022, a sigla saltou para 99 cadeiras na Câmara. O crescimento de 191% não veio de onda espontânea — veio de matemática eleitoral feita em gabinetes climatizados enquanto o noticiário focava em praias e carnaval.
Lula em 2002: o verão das federações sindicais
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou janeiro e fevereiro de 2002 percorrendo congressos da CUT, Força Sindical e CGTB. Não eram atos públicos: eram plenárias fechadas onde negociava plataformas de governo com centrais que, somadas, representavam 22 milhões de filiados.
O compromisso firmado nesses encontros — manutenção do fator previdenciário, valorização do salário-mínimo acima da inflação — virou base do primeiro mandato. A vitória no primeiro turno com 46,4% dos votos válidos teve raiz nesses acordos de verão.
O padrão que se repete em 2024
Os atuais líderes do Congresso — Arthur Lira (PP-AL) na Câmara, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) no Senado — replicam o roteiro. Janeiro foi mês de reuniões com governadores do Nordeste, bancadas do agronegócio e ministros de tribunais superiores. Nenhuma agenda constava no portal da transparência como “oficial”.
- Lira: 17 encontros com líderes de federações partidárias em 20 dias
- Pacheco: 12 audiências com presidentes de tribunais de contas estaduais
- Bancada do PL: 43 pré-candidatos a prefeito filiados apenas em janeiro
Enquanto o noticiário destaca veraneio e folga, a engrenagem de 2026 já roda. O PL projeta 115 deputados na próxima legislatura. O PT, 72. O centrão, somado, ultrapassa 220 — maioria absoluta sem precisar de um único voto da oposição.
O que observar nos próximos meses
Três indicadores antecipam o desenho de 2026 melhor que qualquer pesquisa de intenção de voto: filiações em massa nos primeiros 90 dias do ano, tempo de TV garantido nas federações fechadas até março e distribuição de emendas de relator-geral do Orçamento. Quem controla esses três vetores no verão costuma ditar o ritmo do outono eleitoral.
O recado dos últimos cinco ciclos é claro: a eleição não se decide em outubro. Ela se desenha no silêncio de janeiro, nas planilhas de fevereiro, nos apertos de mão que não viram foto. Quem lê só o noticiário de praia perde o jogo real.
