Economia

Exportação de café explode 20% e atinge maior volume em 20 meses

Sacarias de café verde sendo carregadas em navio no porto brasileiro para exportação recorde
Brasil exporta 235,8 mil toneladas de café em setembro, maior volume em 20 meses

O Brasil embarcou 235,8 mil toneladas de café verde em setembro, o maior volume em quase dois anos. A alta de 20,4% frente a 2023 surpreende, mas esconde um detalhe crucial: o preço médio caiu quase 10%.

Como a receita ainda cresceu 8,7% e bateu US$ 1,29 bilhão? A resposta está no tamanho da safra recorde e na janela de embarque.

O volume que ninguém esperava para setembro

Dados da Secex divulgados nesta terça-feira (6) mostram que o país escoou 3,93 milhões de sacas de 60 kg no mês passado. Esse número representa o pico de embarques desde janeiro de 2023, rompendo a sazonalidade típica de final de safra.

A colheita, atrasada por chuvas atípicas no inverno, só foi finalizada em setembro. Isso liberou uma onda de grãos da nova safra justamente quando os portos costumam esvaziar.

O resultado: uma oferta abundante encontrou demanda externa aquecida, empurrando os volumes para cima.

A conta que fecha no azul apesar da queda no preço

O preço médio recuou 9,8% na comparação anual. Em tese, isso reduziria a receita em dólares. Na prática, o salto de volume mais do que compensou a desvalorização.

  • Receita cambial: US$ 1,29 bilhão (+8,7% a/a)
  • Volume: 235,8 mil t (+20,4% a/a)
  • Preço médio: queda de 9,8% a/a

O café consolidou-se como o segundo maior gerador de divisas do agro in natura, ficando atrás apenas da soja.

Soja estável, milho em queda e boi em colapso

O complexo soja manteve o ritmo: US$ 3,47 bilhões em receita (+11,9%) com 7,36 milhões de toneladas embarcadas, volume praticamente estável. Setembro não é mês de pico para a oleaginosa, mas os números mostram solidez.

Já o milho sentiu o peso da concorrência argentina e da demanda interna pelo etanol. Embarques caíram mais de 30%, para 5,2 milhões de toneladas.

O choque maior veio da carne bovina. As exportações despencaram 38%, para 195,2 mil toneladas. Dois golpes simultâneos explicam o tombo:

  • Fim da cota chinesa com tarifa reduzida;
  • Suspensão das habilitações para a União Europeia desde o início do mês, por exigências sobre antimicrobianos.

O que observar daqui para frente

O fluxo de café deve seguir forte nos próximos meses enquanto a safra recorde abastece os terminais. O risco está na sustentabilidade dos preços: se a oferta global permanecer pressionada, a receita em dólares pode perder fôlego mesmo com volumes recordes.

No front das carnes, a reabertura do mercado europeu e a renegociação de cotas com a China ditam o ritmo de recuperação. Para o milho, a competitividade argentina segue como variável decisiva.

Investidores e tradings devem monitorar os relatórios de safra da Conab e os dados semanais de embarque da Secex. A combinação entre volume físico e formação de preço em Nova York e Londres definirá se o superávit cambial do agro se mantém no último trimestre.