Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, lançou um alerta direto: os dois maiores credores estrangeiros dos Estados Unidos estão se preparando para reduzir a exposição a títulos do Tesouro americano. O movimento pressiona rendimentos que já tocam 5,3% — nível não visto desde 2002 — e coloca em xeque o financiamento de cerca de um terço da dívida federal.
A dinâmica credor-devedor entre Washington, Pequim e Tóquio entrou em zona de turbulência. A pergunta que fica é: quem vai comprar essa dívida se os principais compradores saírem de cena?
O cerne do alerta: geopolítica e necessidade interna
Dalio foi direto ao ponto em entrevista à Bloomberg Television. Para a China, acumular Treasuries deixou de fazer sentido estratégico. A relação de “adversários” torna o acúmulo de títulos do “inimigo” um risco geopolítico inaceitável.
No caso do Japão, a motivação é doméstica e urgente. Tóquio vendeu US$ 12,8 bilhões em julho, reduzindo a posição para US$ 1,1 trilhão. A venda serviu para financiar intervenções cambiais em defesa do iene enfraquecido. O credor precisa de caixa próprio.
Os números que expõem a retirada silenciosa
A redução não é um evento futuro; ela já acontece nos bastidores há anos. Veja a evolução das posições oficiais:
- Japão: US$ 1,1 trilhão (julho/2024), queda de US$ 12,8 bi no mês.
- China continental: US$ 618 bilhões (julho/2024), bem abaixo do pico de US$ 1,3 trilhão em 2013.
- Bélgica: US$ 470,7 bilhões — analistas suspeitam que parte relevante seja custódia chinesa disfarçada.
Se a Bélgica atuar como “proxy”, a exposição real de Pequim pode ser maior, mas a tendência de queda estrutural permanece clara nos dados do Tesouro americano.
Juros nas alturas e a aposta de Bessent
Enquanto Dalio prevê crise de dívida em até três anos, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tenta acalmar o mercado. Ele promete que crescimento e corte de gastos vão “mudar a curva” do endividamento “muito rapidamente”.
O mercado, no entanto, cobra um prêmio de risco alto. Os Treasuries de 10 anos rendem cerca de 5,3%. Títulos globais caem 3% no ano; os americanos, 2,8%. A França, citada por Dalio como tendo atingido o “limite de endividamento”, mostra que o contágio soberano é real.
O novo vetor de pressão: a conta da inteligência artificial
Não são apenas os governos que competem por capital. Dalio destaca que as hyperscalers de tecnologia — as gigantes da IA — mudaram de estratégia. Antes, financiavam expansão com capital próprio. Agora, recorrem ao mercado de dívida.
Essa disputa por financiamento eleva o custo do dinheiro para todos. Segundo o investidor, gatilhos como um eventual imposto sobre grandes fortunas ou a necessidade de rolar passivos podem estourar a bolha da IA, agravando a fuga de risco.
O que observar daqui para frente
O cenário exige monitorar três frentes simultâneas: a velocidade das vendas japonesas para defender o iene, a disposição da China em diversificar reservas (ouro e commodities entram na conta) e a capacidade do Tesouro americano de colocar dívida sem elevar ainda mais o prêmio de termo. Se a demanda estrangeira secar de vez, o Federal Reserve pode ser forçado a intervir — e aí a inflação volta ao centro do debate.
