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A fábrica de votos que saiu das redes e tomou o Congresso

Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato no Congresso Nacional com gráficos de votação recorde 2026
Deputados Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato quebram recorde histórico com mais de 3 milhões de votos cada

Dois deputados federais ultrapassaram a barreira dos 3 milhões de votos em 2026, um feito inédito na história brasileira. O fenômeno não é acidente: revela uma engrenagem que une algoritmos, púlpitos e identificação simbólica — e que deve ditar as próximas disputas majoritárias.

O novo recorde e o que ele sinaliza

Nikolas Ferreira (PL-MG) renovou o próprio recorde com 3,11 milhões de votos, mais que o dobro de 2022. Lucas Pavanato (PL-SP), 28 anos, ficou a 72 mil votos de distância, com 3,03 milhões. O recorde anterior, de Eduardo Bolsonaro em 2018 (1,8 milhão), ficou para trás por larga margem.

O dado bruto chama atenção, mas o padrão por trás dele interessa mais a quem acompanha o xadrez político. Ambos construíram a campanha no mesmo tripé: presença massiva no Instagram, linguagem de confronto curto e apoio direto de lideranças evangélicas.

Pavanato saiu de 160 mil votos para vereador em 2024 para 3 milhões para a Câmara em dois anos. A alavanca foi a exposição contínua ao lado de Nikolas — comícios juntos, peças de TV compartilhadas, stories cruzados. O analista Creomar de Souza resume: a visibilidade da campanha tem “cota pessoal” do deputado mineiro.

A replicação para além de Minas e São Paulo

O modelo não parou na dobradinha. No Espírito Santo, Lucas Polese (PL), 29 anos, elegeu-se o deputado federal mais votado da história do estado com 419.735 votos. Conhecido como “Nikolas capixaba”, usou a imagem do mineiro no horário eleitoral e tem 290 mil seguidores no Instagram.

No Ceará, André Fernandes (PL) renovou o mandato com 684.372 votos, superando nomes tradicionais como Ciro Gomes. Youtuber de origem, 29 anos, também recebeu apoio explícito de Nikolas. No Paraná, Guilherme Kilter (Novo), 24 anos, fez 269.832 votos — segundo mais votado do estado — com 1 milhão de seguidores e base na Primeira Igreja Batista de Curitiba.

O padrão se repete: idade entre 24 e 30 anos, milhões de seguidores, discurso anti-establishment, vínculo orgânico com igrejas.

Mulheres na esteira: o caso Eduarda Campopiano

A vereadora de Praia Grande (SP) Eduarda Campopiano (PL), 23 anos, foi a mais votada para a Assembleia Legislativa paulista: 1,9 milhão de votos. Aliada de Pavanato, 2,3 milhões de seguidores, pauta conservadora, críticas ao feminismo. O molde é o mesmo; o gênero, diferente.

Por que a engrenagem funciona: três leituras de especialistas

  • Linguagem algorítmica: Rodrigo Prando (Mackenzie) aponta que esses políticos dominam a gramática das redes — cortes, memes, “lacração” — que alimentam emoções extremadas (medo, raiva, frustração). “Jovens digitais numa política ainda analógica.”
  • Fusão política-midiática: Eliara Santana (Unicamp/IEPI) rejeita o rótulo “político influenciador”. Para ela, vivemos um mundo “político-midiático” onde as redes não divulgam a identidade; elas a constroem. O discurso transforma insatisfações difusas em narrativa de empoderamento acessível.
  • Voto por identificação simbólica: Carlos Machado (UnB) nota que a escolha deixa de pesar propostas e passa a pesar proximidade percebida. As plataformas permitem reforçar essa identificação diariamente, sem mediação.

O pilar invisível: a organização nas igrejas

Santana destaca que a base não nasce no digital. Nikolas tem ligação com a Igreja Batista da Lagoinha. André Fernandes, com a Assembleia de Deus cearense (o pai, Alcides Fernandes, é pastor e deputado estadual). Pavanato atua na Igreja Católica. Kilter lidera jovens na Batista de Curitiba.

“Eles já têm uma arena”, diz a pesquisadora. “São meninos religiosos que estão na política, mas atingem também quem quer discutir as preocupações dos cristãos no espaço público.” Nikolas publicou O Cristão e a Política, defendendo que cristãos ocupem o poder para que “outros não se apropriem dele”.

Para Santana, a “multiplicação de Nikolas” não é criação individual, mas disseminação de um modelo político-discursivo-midiático importado da extrema direita dos EUA, adaptado ao terreno fértil do bolsonarismo e das igrejas neopentecostais brasileiras.

O que observar daqui para frente

Três variáveis decidirão se a engrenagem segue girando ou trava: (1) a capacidade de manter engajamento orgânico fora do ciclo eleitoral; (2) a reação do sistema partidário tradicional, que perdeu espaço em redutos históricos; (3) a eventual judicialização do uso de máquinas institucionais (mandatos, verbas de gabinete, tempo de TV) para alavancar novos nomes.

Para investidores e analistas de risco político, o recado é claro: a formação de bancadas deixa de seguir a lógica de currais eleitorais e passa a seguir a lógica de audiências. Quem controla a atenção controla a indicação. Acompanhe as métricas de alcance e a capilaridade religiosa dos novatos — elas valem mais que o tempo de televisão.