O presidente da Saudi Aramco, Amin Nasser, lançou um alerta direto em Londres: as reservas comerciais globais de petróleo caíram para menos de 6 bilhões de barris, um nível que ele classificou como “assustadoramente baixo”. A recomposição desse colchão de segurança, caso a geopolítica permita, deve consumir até dois anos.
O executivo falou pela primeira vez publicamente desde o início do conflito no Oriente Médio, durante o Energy Intelligence Forum. A mensagem central é de que a margem de manobra do mercado para absorver novos choques de oferta praticamente desapareceu.
O tamanho do buraco nas reservas
Os números apresentados por Nasser desenham um cenário de aperto severo. Desde o início da guerra, a oferta da região encolheu em quase 3 bilhões de barris — volume equivalente a metade do fluxo normal que cruzaria o Estreito de Ormuz no período.
Para tapar esse buraco, o mundo consumiu mais de 1 bilhão de barris dos próprios estoques. Governos liberaram 300 milhões de barris de reservas estratégicas e concordaram em soltar mais volume na sexta-feira (2), mas o CEO da Aramco foi taxativo: a maior parte do sacrifício veio dos tanques das empresas, a “última grande ferramenta disponível”.
- Estoque comercial atual: inferior a 6 bilhões de barris.
- Volume “disponível na prática”: fração minoritária do total.
- Déficit de oferta regional: ~3 bilhões de barris em 7+ meses.
- Brent de referência: sustentado acima de US$ 100.
Infraestrutura na mira e logística cara
Além da escassez física, Nasser apontou uma ameaça assimétrica: dados abertos de satélites e rastreamento naval estariam sendo “transformados em armas” contra instalações e navios-tanque. Nas últimas semanas, o Irã atingiu embarcações em Ormuz, enquanto grupos aliados no Iêmen e no Iraque miraram dutos, refinarias e portos da estatal saudita.
Mesmo com os embarques do Golfo tendo recuperado 15,5 milhões de barris/dia no mês passado — o pico desde o começo da guerra, segundo a Kpler —, o custo logístico explodiu. O frete elevado e as rotas desviadas mantêm o prêmio de risco embutido no preço do barril.
O cenário para os próximos 24 meses
O executivo traçou uma projeção sóbria: mesmo com o cessar-fogo, a equação “repor estoques + atender demanda crescente” exige um horizonte de até dois anos. Diante disso, a Aramco já estuda rotas alternativas de escoamento para o crude saudita e avalia construir novos terminais de armazenamento no exterior.
O recado aos governos foi direto: a segurança e a resiliência energética precisam subir na lista de prioridades nacionais. A dependência de estoques corporativos como amortecedor final não é sustentável.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o ritmo da normalização: a duração das hostilidades no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz, a disposição da OPEP+ em manter cortes voluntários enquanto as reservas sangram, e a velocidade dos investimentos em redundância logística anunciados pela própria Aramco. Para o tomador de decisão, o sinal é claro: o prêmio de risco geopolítico deixou de ser evento pontual e virou variável estrutural de custo.
