A CallMed Saúde projeta faturar R$ 150 milhões em 2027, um salto de 50% sobre o patamar atual, turbinada pela gestão do fundo de private equity XR Advisor. A empresa, que dobrou de tamanho desde a pandemia, gerencia hoje corpos clínicos para grandes operadoras e hospitais de São Paulo. Mas o número que chama atenção não é o faturamento — é o modelo que permite escalar sem perder o controle.
Fundada há dez anos pelo médico Juliano Callegaro, a companhia nasceu focada em anestesiologia. A crise sanitária forçou uma expansão urgente para UTIs, enfermarias e ambulatórios. Hoje, são cerca de 1.200 médicos cadastrados, com 400 em atuação regular. Cada profissional passa por validação documental, checagem jurídica, conferência de títulos e verificação de antecedentes antes de pisar em uma unidade.
Por que operadoras terceirizam a gestão médica
O Brasil tem 635 mil médicos em atividade, quase o dobro de uma década atrás, segundo estudo da USP e da Associação Médica Brasileira. O volume cresceu, mas a capacidade de contratar, auditar e gerir essa mão de obra não acompanhou o mesmo ritmo. Hospitais e operadoras terceirizam para ganhar eficiência, reduzir passivos trabalhistas e flexibilizar escalas.
A CallMed entra nessa lacuna. Não apenas “fornece médicos”, mas assume a burocracia, o compliance e a governança clínica. O aporte da XR Advisor serviu justamente para profissionalizar essa engrenagem: controles financeiros rígidos, estrutura de compliance e governança corporativa.
O que muda com a chegada do fundo
- Governança formalizada com conselho e comitês
- Controles financeiros padronizados (auditoria, fluxo de caixa, capex)
- Compliance ativo: LGPD, anticorrupção, conflito de interesses
- Estrutura para aquisições e expansão geográfica
Rodolfo Oliveira, fundador e CEO da XR Advisor, resume a tese: “Crescimento sem organização aumenta riscos. O diferencial não está em disponibilizar médicos, mas em construir modelo baseado em governança, compliance, educação e gestão especializada”.
O próximo passo: braço educacional e o gargalo da formação
A empresa prepara o lançamento de uma vertical de educação: cursos de capacitação, atualização técnica e preparação para o Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica). A iniciativa nasce de um dado duro: o número de formandos explodiu, mas a qualidade média da formação não acompanhou. Hospitais sentem isso na ponta — profissionais com diploma, mas sem preparo para a prática real.
Ao internalizar a capacitação, a CallMed cria uma esteira própria de talentos, reduz dependência de contratação externa e eleva o padrão do corpo clínico que entrega aos clientes. É uma jogada de margem e de barreira de entrada.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis vão ditar se a projeção de R$ 150 milhões se concretiza: a velocidade de implementação da vertical educacional, a capacidade de replicar o modelo fora de São Paulo e o apetite de operadoras por contratos de gestão full-service versus alocação pontual. O setor caminha para consolidação — e quem tem governança, tecnologia e gente preparada sai na frente.
