Economia

O segredo por trás da independência chinesa nas terras raras brasileiras…

Planta industrial da Sais Nordeste em Feira de Santana, Bahia, produtora de sulfato de magnésio para projeto de terras raras Ema
Fábrica da Sais Nordeste em Feira de Santana (BA), agora controlada pela Brazilian Critical Minerals para suprir insumos ao projeto Ema.

A Brazilian Critical Minerals acaba de dar um xeque-mate logístico no seu projeto Ema, na Bahia. A companhia anunciou a aquisição de 90% da Sais Nordeste, única planta de sulfato de magnésio do Nordeste, localizada em Feira de Santana. O movimento visa cortar a dependência de reagentes importados da China.

O valor da transação não foi revelado, mas a meta operacional é ousada: a fábrica deve suprir metade da demanda do projeto de terras raras já no curto prazo. A expectativa interna é atingir autossuficiência total — ou seja, produzir mais de 100% do insumo necessário.

Por que o sulfato de magnésio mudou o jogo

Terras raras não saem da terra prontas para uso. A separação dos elementos exige reagentes químicos específicos, e o sulfato de magnésio é peça-chave nesse processo. Hoje, a cadeia global desse insumo está concentrada na Ásia.

Controlar a fonte do reagente elimina dois riscos críticos: a volatilidade do frete marítimo e as restrições de exportação impostas por Pequim. Para um projeto que mira o mercado ocidental de ímãs permanentes, isso é vantagem competitiva pura.

A estrutura do acordo e o passivo oculto

A compra foi feita via Mineração BBX do Brasil, subsidiária integral do grupo australiano. A Sais Nordeste carrega passivos históricos que a nova controladora se comprometeu a renegociar. O plano inclui aporte financeiro e gestão operacional para tornar a unidade sustentável novamente.

Não é apenas uma aquisição de ativo; é um turnaround industrial. A fábrica estava subutilizada e a injeção de capital visa reativar a capacidade ociosa voltada 100% para a demanda interna do projeto Ema.

O que está em jogo no projeto Ema

  • Localização: Bahia, distrito de Ema (município de Campo Formoso).
  • Foco: Terras raras pesadas (dislânio, térbio) e leves (neodímio, praseodímio).
  • Estratégia: Mina a céu aberto + processamento hidrometalúrgico próprio.
  • Diferencial: Baixo teor de rádio e tório (facilita licenciamento e descarte).

A aquisição da planta de Feira de Santana encaixa-se como a peça que faltava no quebra-cabeça verticalizado. Mineração, beneficiamento e agora insumo químico crítico sob o mesmo guarda-chuva corporativo.

O efeito cascata na cadeia de suprimentos

Ao internalizar a produção do reagente, a empresa reduz a exposição ao câmbio e a prazos de entrega internacionais que podem ultrapassar 90 dias. Em um cenário de tensão geopolítica, ter a fábrica a 300 km da mina é segurança operacional, não apenas economia.

Além disso, a Sais Nordeste pode, no futuro, atender terceiros. A capacidade excedente — projetada para além dos 100% da necessidade própria — abre uma nova linha de receita: venda de sulfato de magnésio para o agronegócio e indústria farmacêutica da região.

O que observar nos próximos trimestres

O sucesso da empreitada depende da velocidade da reestruturação da Sais Nordeste. A renegociação de dívidas antigas e a retomada da produção em escala industrial são os marcos a monitorar. Se a planta entrar em regime contínuo até o primeiro semestre do ano que vem, o projeto Ema ganha previsibilidade de custo operacional (Opex) que poucos concorrentes fora da China possuem hoje.

Para investidores e players do setor, o sinal é claro: a verticalização chegou ao Brasil. Quem controlar a química do processo, controla a economia do projeto.