Economia

O segredo da mobilidade social no Brasil: por que Sul e Nordeste são mundos à parte

Mapa do Brasil destacando contraste de mobilidade social entre Sul e Nordeste com gráficos de setor privado e público
Estudo revela que integração no setor privado impulsiona mobilidade social mais que refúgio da elite no serviço público

Cidades onde qualificados e não qualificados trabalham juntos no setor privado geram mais ascensão social do que aquelas onde a elite técnica se refugia no serviço público. É o que revela estudo publicado na PNAS analisando dados do mercado formal brasileiro até 2018.

A pesquisa, liderada pelo chileno César Hidalgo — diretor do Centro de Aprendizagem Coletiva em Toulouse —, mostra que a estrutura da desigualdade importa mais que seu nível. Mas o que isso significa na prática para quem empreende, investe ou gere carreiras?

O mapa invisível que separa dois Brasis

O estudo dividiu o país numa linha que corta de Salvador ao Rio. Ao sul dela, municípios exibem mistura de mão de obra no setor privado: engenheiros, técnicos e operários compartilham o mesmo ambiente produtivo. Ao norte, os profissionais mais preparados concentram-se no funcionalismo público.

Resultado prático: em cidades nortistas, mais da metade dos trabalhadores que começavam ganhando até 1,5 salário mínimo permaneciam nesse patamar sete anos depois. No Sul, a proporção caía para cerca de um terço.

Por que a segregação travam o motor do desenvolvimento

Hidalgo usa uma metáfora precisa: “No Norte, as instituições são fortes, atraem bons talentos, mas tiram o ar do restante da economia”. Quando a qualificação fica isolada no setor público, não há difusão de conhecimento para empresas, fornecedores e trabalhadores menos experientes.

No Sul, a industrialização histórica criou cadeias produtivas onde a interação é inevitável. Um gerente de fábrica ensina, aprende e puxa a produtividade de quem está ao lado. Esse efeito de contágio acelera carreiras e salários.

Dados atuais confirmam: o padrão não mudou

O economista Alysson Portella (UFRGS) avalia que a pandemia não alterou substancialmente esse cenário. Os números do IBGE do segundo trimestre de 2026 escancaram a persistência:

  • Desemprego: Nordeste 7,6% | Norte 6,1% | Sul 3,2% | Centro-Oeste 3,8% | Sudeste 5,2%
  • Informalidade: Norte 50,4% | Nordeste 48,7% | Sul 28,8% | Centro-Oeste 33,3% | Sudeste 33,4%
  • Renda média: Nordeste R$ 2.645 | Norte R$ 2.926 | Sul R$ 4.238 | Centro-Oeste R$ 4.362 | Sudeste R$ 4.124

O que isso muda na sua decisão de expansão ou contratação

Para investidores e gestores, a lição é clara: ambientes de mistura geram retorno humano e financeiro maior. Instalar operação onde há ecossistema privado diversificado — com universidades técnicas, polos industriais e cadeias de serviços — aumenta a chance de desenvolver talentos internamente.

Já em regiões onde o setor público drena a qualificação, a estratégia passa por parcerias com instituições de ensino ou programas de trainee agressivos para criar a “mescla” que o mercado local não oferece espontaneamente.

O que observar daqui para frente

Dois vetores podem alterar o tabuleiro: a expansão do ensino técnico integrado ao setor produtivo no Norte/Nordeste e a eventual reforma administrativa que reduza o diferencial de atratividade do funcionalismo. Enquanto isso, quem souber ler o mapa da mescla — e não apenas o mapa da renda — levará vantagem na formação de times e na escolha de praças para crescer.