A corrida ao Palácio do Planalto em 2026 colocou cinco nomes na mesa com receitas radicalmente diferentes para a economia. O que está em jogo não é apenas ideologia, mas o custo do crédito, a taxa de juros real e a capacidade de investimento do país nos próximos quatro anos.
O g1 dissecou os planos de governo registrados no TSE de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo). A seguir, o que cada um propõe para os cinco eixos que ditam o ritmo dos negócios no Brasil.
O tsunami das bets: proibição ou regulação dura?
O setor moveu R$ 62,5 bilhões do orçamento familiar apenas em 2025, enquanto o Tesouro embolsou R$ 15,3 bilhões em impostos no mesmo período. A MP que tenta banir apostas de quota fixa e cassinos virtuais ainda tramita no Congresso, mas o próximo presidente herdará a definição final.
- Lula: Foca em controle de crédito para apostadores, saúde mental e proteção de menores.
- Flávio Bolsonaro: Veta uso de benefícios sociais em bets e aposta em educação financeira via Caixa.
- Caiado: Propõe teto de gastos por apostador, fim da publicidade em massa e combate ao mercado ilegal.
- Cury e Zema: Não tratam do tema diretamente nos planos oficiais.
O risco de migrar o volume para plataformas clandestinas — sem tributação nem proteção ao consumidor — é o contraponto técnico que nenhum candidato ignora por completo.
Dívida pública a 82,9% do PIB: o elefante na sala
O rombo primário acumula R$ 88,9 bilhões em oito meses. Com juros, o déficit beira R$ 1,26 trilhão (9,48% do PIB). Analistas alertam: sem freio nas despesas obrigatórias, a Selic longa não cai e o crédito segue caro.
As receitas divergem na cirurgia:
- Zema: Choque de gestão — reforma da Previdência, administrativa, privatizações e venda de imóveis. Meta de redução de carga tributária atrelada a corte de gastos.
- Caiado: Estabilização da dívida sem aumento de impostos nem cortes lineares, limitando despesas obrigatórias e revisando subsídios.
- Lula: Mantém o Arcabouço Fiscal, protege saúde/educação, mira eficiência de gasto e tributação de alta renda.
- Flávio Bolsonaro: Nova regra fiscal para estabilizar dívida/PIB, teto para empréstimos subsidiados e enxugamento de despesas discricionárias nos três Poderes.
- Renan Santos (Partido Missão): PEC de Equilíbrio Fiscal com economia projetada de R$ 1,1 tri até 2031, desvinculando benefícios do salário mínimo e acabando com pisos de saúde/educação.
- Cury: Déficit próximo de zero, IA contra fraudes, reforma administrativa e novo pacto federativo.
Famílias endividadas: 82% devem e a inadimplência bate recorde
O comprometimento da renda atingiu o pico histórico. Com o consumo respondendo por 63% do PIB, o gargalo do crédito caro — especialmente rotativo do cartão — trava qualquer projeção de crescimento robusto.
As apostas para desafogar o bolso:
- Cury: “Banco do Empreendedor” com microcrédito a 5-6% a.a. e novo modelo de scoring.
- Lula: Expansão do Desenrola (pessoas e PMEs), crédito responsável e queda sustentada da Selic.
- Zema: Portabilidade e renegociação via Open Finance, modernização de garantias e “Sócios do Brasil” (R$ 1.000 ao nascer, resgate aos 18).
- Caiado: Crédito Social Acompanhado para microempreendedores + proteção patrimonial a vulneráveis.
- Flávio Bolsonaro: Juros baixos via ajuste fiscal, programa “Ganha-Ganha”, renegociação focada em mulheres e FIES condicionado à renda.
Tarifaço de Trump e a carta das terras raras
Sobretaxas de até 37,5% sobre produtos brasileiros entraram em vigor em julho. O Brasil detém a 2ª maior reserva mundial de terras raras — essenciais para chips, EVs e defesa — enquanto a China controla 70% da produção global. O interesse americano abriu janela de negociação.
Visões de inserção internacional:
- Zema: Saída dos BRICS, Mercosul como zona de livre comércio, entrada na OCDE e redução gradual de tarifas de importação.
- Caiado: Pragmatismo comercial, processamento de minerais estratégicos no Brasil antes de exportar, ampliação de acordos.
- Lula: “Plano Brasil Soberano” contra barreiras, busca de novos mercados, indústria nacional forte, exportação de maior valor agregado.
- Flávio Bolsonaro: Prioridade a EUA, Argentina, Israel, sem fechar portas para China/UE. Facilitação de insumos e tecnologia.
- Renan Santos: Zonas Econômicas Especiais para terras raras, aço verde, H2 verde, ciberdefesa e IA. BRICS+ pragmático.
- Cury: Desburocratização exportadora, devolução de tributos, cinco corredores logísticos e cinco áreas regionais de exportação.
Selic a 13,75% e IPCA a 4,22%: a âncora que não solta
Mesmo após cinco cortes em 2026, a taxa real segue das mais altas do mundo. Mercado projeta 13,50% no fim do ano. Inflação acima da meta (3%) impede voos mais ousados.
O denominador comum é o fiscal, mas os instrumentos variam:
- Caiado: Plano de longo prazo para gastos crescerem menos que PIB, coordenação fiscal-monetária respeitando autonomia do BC.
- Zema: Superávits recorrentes, corte gradual de IOF, fim de subsídios BNDES e encargos na conta de luz.
- Lula: Arcabouço + produtividade industrial + energia limpa + estoques reguladores de alimentos.
- Flávio Bolsonaro: Corte de gastos/dívida, fim de empréstimos subsidiados, redução de impostos sobre combustíveis e energia.
- Cury: Contas equilibradas, microcrédito barato (5-6%), combate a juros “excessivos” para mulheres e agro.
- Renan Santos: Ajuste fiscal profundo para estabilizar dívida e abrir espaço para queda de juros e retomada de investimento.
O que observar daqui para frente
Segundo Sidney Lima (Ouro Preto Investimentos), 2027 será o ano decisivo da transição da reforma tributária — o “ano um” do novo sistema. A equação final passa por transformar emprego em renda real via produtividade. O empresário e investidor deve monitorar: a velocidade de aprovação das PECs fiscais no Congresso, a regulamentação final das bets (impacto direto no varejo e inadimplência), os leilões de infraestrutura/logística (corredores de exportação) e os editais de terras raras. Quem antecipar a combinação vencedora entre ajuste fiscal crível e agenda de oferta (produtividade, energia, logística) captura o prêmio de risco antes da massa.
