Quarenta e um por cento dos brasileiros colocam as mudanças climáticas no topo das ameaças futuras, superando até o fantasma do desemprego. O dado vem do estudo Termômetro do Brasil, do Instituto Oyá com a Ipsos, mas esconde uma contradição intrigante.
Quando a pergunta muda para “o que te preocupa agora”, o clima cai para nono lugar. Entender essa distância entre medo de longo prazo e urgência imediata é essencial para quem decide investimentos, comunicação ou políticas públicas.
O ranking que inverte a lógica do medo
O levantamento ouviu 2 mil pessoas entre agosto e setembro de 2026. No cenário futuro, a hierarquia de riscos fica assim:
- Mudanças climáticas: 41%
- Perda de emprego: 32%
- Retrocesso democrático: 32%
- Deterioração da saúde: 31%
- Escassez de alimentos: 30%
- Nova pandemia: 24%
No radar do dia a dia, porém, o tema despenca para 14% das menções (9º lugar), enquanto ameaças ambientais gerais aparecem com 10% (10º lugar). O Brasil ocupa a 20ª posição global de preocupação climática futura — alto, mas não líder.
Desinformação: o motor invisível da percepção
A diretora executiva do Instituto Oyá, Camila Kamilo, destaca um achado que deve acender alerta em qualquer sala de reunião: 78% dos entrevistados não conseguiram distinguir notícias falsas de verdadeiras em um experimento cego, inclusive sobre eventos climáticos extremos.
O mesmo teste mostrou que conteúdos com forte apelo emocional são aceitos como fatos. Não por acaso, 81% temem deepfakes e manipulação por inteligência artificial. A confiança está invertida: 67% confiam na tecnologia, enquanto 65% desconfiam dos governos.
“A deterioração da confiança faz as pessoas aceitarem qualquer coisa como verdade”, resume Kamilo. Isso vale para o clima, mas também para decisões econômicas e escolhas eleitorais.
Engajamento remoto e confiança seletiva
A pesquisa revela como o brasileiro age diante do risco climático: a mobilização acontece nas redes, de forma distante, não em ruas ou conselhos presenciais. Para a pesquisadora, faltam políticas públicas e novos modelos de comunicação que garantam informações verificadas.
Um contraponto importante: 45% confiam em ONGs, bem acima de partidos e governos. Fortalecer a sociedade civil e a imprensa checada torna-se estratégico para quem precisa de licença social para operar.
O vazio partidário e o que observar daqui pra frente
O eleitorado dá as costas à política tradicional: 39% descartam atuar em campanhas ou partidos e 33% rejeitam protestos de rua. O vácuo de representação abre espaço para narrativas paralelas — muitas vezes falsas — preencherem o debate climático.
O que monitorar nos próximos trimestres:
- Avanço de marcos regulatórios contra deepfakes e desinformação climática.
- Parcerias entre setor privado, ONGs e imprensa para checagem em tempo real.
- Mudança na alocação de capital ESG impulsionada pela pressão de stakeholders mais informados.
Quem antecipar a ponte entre o medo futuro (41%) e a ação presente (14%) sairá na frente — seja na gestão de riscos, na reputação de marca ou na captação de recursos verdes.
